Trombose da OTAN

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Jaap de Hoop Scheffer sofre de trombose. O ex-Secretário Geral da OTAN foi hospitalizado e teve que abandonar suas funções, dando lugar ao primeiro ministro da Dinamarca, Anders Fogh Rasmussen. Tá, e daí?

No passado, Rasmussen aprovou rapidamente o envio de tropas tanto ao Afeganistão quanto ao Iraque, endossando a denúncia de armas de destruição em massa nesse último país. Depois, quando se mostrou outra realidade, disse que na verdade a mobilização militar ocorrera pelo fato do ex-presidente Saddam Hussein não colaborar com a ONU. Além disso, houve o caso das charges de Maomé. Rasmussen se colocou como defensor da liberdade de expressão e se recusou a pedir desculpas pelas caricaturas. Sim, foi uma GRAVE crise com o mundo islâmico, que quase custou sua nomeação ao cargo que hoje ocupa na OTAN por veto da Turquia. Vai ter que rebolar pra contornar isso – e já colocou o embaixador dinamarquês na Turquia dentro do seu gabinete.

Mas enfim, o que muda? Bem, Rasmussen já declarou a intensão de delegar progressivamente a responsabilidade sobre o Afeganistão aos afegãos – mas não tão rápido. Ele clama por equíbrio entre os dois lados do Atlântico, ou seja, a Europa precisa ceder mais contingente, uma vez que a missão não é dos Estados Unidos mas da OTAN. E por que isso? Ora, o general responsável pelo Afeganistão na OTAN foi nomeado justamente para trazer novas ideias e evitar o envio de tropas. Não foi o que ocorreu – ainda no início da administração Obama, comentamos aqui no blog que os EUA aprovaram o aumento da presença militar no Afeganistão. O problema é que ele enfrenta grande oposição mesmo no seu partido quanto a essa política, ou seja, vamos tirar essas tropas de outras fontes: a OTAN.

O desejo de Rasmussen de tirar a OTAN do Afeganistão não vai ocorrer tão cedo por várias razões: uma delas é que as políticas de desenvolvimento econômico e social na região ainda são incipientes demais, e o foco da ISAF (missão da OTAN no Afeganistão) é eminentemente militar. Segundo ponto: o Afeganistão se localiza em uma área muito cobiçada por todas as potências: a Ásia Central. Trata-se de uma zona de influência disputada por Rússia, EUA e China, na busca de controle de petróleo e militarmente estratégica por estar no olho do furacão.

Por fim, e mais importante: a ISAF é praticamente a razão de existir da OTAN. Tudo bem, há missões em Kosovo (já em fase de retirada), as relações com a Rússia (sempre delicadas e de caráter basicamente consultivo pelas várias divergências entre ambos), o projeto do escudo antimísseis (que por ser um projeto americano e estar paralisado pela administração Obama, não deixa muitas alternativas à OTAN que não esperar) e as relações com o Mediterrâneo e os Balcãs. Sobre esses últimos pontos, trata-se basicamente da expansão da OTAN! Ou seja, a OTAN aumenta e vira uma nova ONU… Pouco efetivo para uma aliança militar, não?

Rasmussen não deve trazer nada de muito novo à aliança militar. O fato é que a OTAN ainda se arrasta após a guerra fria, tentando encontrar uma razão boa o suficiente para continuar existindo – nem que ela esteja a kilômetros de seus países membros.



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