Trocando seis por meia dúzia

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É possível estar em dois lugares ao mesmo tempo? Fisicamente falando a resposta é não. E se alterarmos a questão. É possível estar em dois tempos simultaneamente? Avaliando os resultados dos últimos eventos no Egito, acredito que possamos esboçar uma resposta bem positiva. O país parece materializar o significado de dois tempos em um só. Se de um lado, a população, fragmentada, vive a tal da primavera árabe, o florescer da democracia que a mídia e os Estados Unidos tanto louvam, de outro, a junta militar no poder vive a ditadura dos tempos de Hosni Mubarak.

Temos visto isso nos últimos movimentos que o país tem enfrentado. Os conflitos seculares entre cristãos e islâmicos aliados aos protestos dos (mais uma vez) ocupantes da praça Tahir contra o governo da junta militar dão o tom do que o Egito de fato vive: uma transição. Se em algum momento pensou-se na Primavera Árabe como uma ruptura, pensou-se de maneira precipitada. Aqui mesmo no blog, o Álvaro já questionou a validade do conceito da Primavera Árabe em um post anterior, dizendo que ela já virou outono.

Ou, talvez, tenha sido primavera. Mas em um jardim que os brotos só virarão flores se tiverem as condições certas. E, caso não tenham, os brotos podem vir a morrer e a primavera vai passar sem mudanças significativas. Em outras palavras, enquanto não se constituir um governo estável com uma constituição, um conjunto de leis satisfatório à população, não se pode falar de um resultado, mas sim de uma fase que pode nem resultar em algo emblemático no futuro. Seria como trocar seis por meia dúzia.

Mas e agora? Qual seria o próximo passo? Bom, atualmente, aos egípicios que viveram sob 30 anos de uma ditadura, há um certo receio que o governo da junta miltiar possa estar no caminho de “ditatoriar-se”. Um pouco desse sentimento provém da lógica militar que age mais sob o senso de cumprir missões, poucas vezes aceitando “não” como resposta. O que também traz o outro problema do baixo grau de diálogo proposto na nova constituição. Uma razão adicional desse sentimento provém dessa falta de um controle da população sobre os militares, e, meus caros, é aí que mora um dos grandes problemas.

Um belo exemplo disso é o Brasil da década de 1960. Há quem diga que vivemos em 1964 uma “revolução democrática”. E, no sentido histórico, talvez não esteja completamente descabido. O golpe militar teve apoio da elite brasileira e de parte significativa da classe média que, grosso modo, temia que o país caminhasse para o comunismo. Todavia, nos anos subsequentes, observou-se emergir um governo que tornou a exceção uma regra e que todos sabem o fim da história.

Sendo assim, é importante que, embora fragmentada, a população (ou partes dela) tente trabalhar no sentido de construir um controle civil sobre os militares para não garantir que eles interfiram demais na política, pois a maior parte desses oficiais foram gestados sob os tratos no querido Mubarak e até mesmo seus candidatos são farinha do mesmo saco. Bom, se na teoria é fácil falar desse processo, já na prática…


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica


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