Troca de parcerias

Por

presidents

O mundo dá voltas, e como todo bom Realista tradicional diria, o inimigo de hoje pode ser o amigo de amanhã – desde que com um adversário em comum. Exemplo clássico disso foi a Guerra Fria, quando os Aliados da II Guerra Mundial, EUA e URSS, após darem a devida sova na Alemanha, passaram a se rivalizar na ausência de um mal maior. Pois bem, os EUA passam por isso de novo neste exato momento. E em duas frentes.

Enquanto Obama autoriza seus caças a bombardearem posições do ISIS no Iraque, a OTAN suspende as ações de cooperação com a Rússia, em um claro sinal de descontentamento que remete à rusga de Moscou com Washington. Ambos os casos revelam como as dificuldades da política internacional fazem os parceiros desse jogo mudarem de lado sem aviso.

No caso da Rússia, é pedra cantada faz um bom tempo. Várias análises demonstram que Bush e Obama tentavam se aproximar de Putin enquanto o governante russo dava de ombros e se empenhava em projetos de fortalecimento interno e projeção regional. Deu no que deu, como vemos nos posicionamentos opostos na Ucrânia e na Síria. Especialmente na Ucrânia, onde o apoio velado aos separatistas faz com que um dos grandes aliados estratégicos dos EUA (lembrem que não é apenas o lado europeu – a Rússia tem grande peso no lado do Pacífico, onde fervem as águas entre Japão e China, e os EUA tem todo o interesse do mundo na estabilidade da região) acabasse se vendo do lado oposto numa disputa política intrincada e perigosa. A cereja do bolo foi o asilo concedido ao ex-analista da NSA Edward Snowden, que agora pode vir a se tornar um cidadão russo (uma baita ironia, diga-se de passagem).

No caso do Iraque, a consequência é ainda mais incrível. Se no caso da Rússia a aproximação pós-Guerra Fria está virando um descontentamento, a intervenção norte-americana pode ser o elemento que faltava para trabalhar em conjunto com ninguém menos que o centro do “Eixo do Mal” de Bush filho. Podemos retomar a culpa pela origem do ISIS na ação norte-americana desde 2002 e definir que qualquer ação no Iraque não será menos que resolver um problema que eles próprios criaram, mas a organização radical tem a capacidade de polarizar quase todo mundo contra eles, incluindo Al-Qaeda e o Irã. Os EUA não estão dispostos a mandar tropas depois do trabalho que Obama teve para retirá-las, mas o enfraquecimento do ISIS pode vir a significar uma ação efetiva do Irã para reduzir a instabilidade e dar suporte ao governo local, seu aliado.

As implicações são muitas, chegando até mesmo ao conflito da Síria (onde os EUA estão se tornando inimigo dos dois lados), logo pensar em uma ação conjunta de fato de EUA e Irã parece improvável. Porém, indiretamente, pode ser um rumo interessante para os EUA que Teerã ajude a manter a estabilidade da região, e a lenta reaproximação após a eleição de Hassan Rouhani tornou factível o que antes era impensável. No mundo da geopolítica, o pragmatismo é uma virtude.


Categorias: Ásia e Oceania, Conflitos, Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa