Trigger Happy

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Apesar do que os noticiários mostram, o ser humano não teria uma inclinação natural à violência – ou, ao menos, a matar semelhantes a sangue-frio. Estudos interessantes mostram como, nas duas guerras mundiais, a maior parte das mortes ocorridas no front foram causadas por estilhaços de granadas ou por morteiros. Muitos soldados que saíam com os rifles em mãos simplesmente não conseguiam atirar em outros seres humanos. Os que conseguiam, era após muito tempo de farda ou aqueles que se chamam “natural born killers”, pessoas comuns que não têm essa dificuldade, beirando a sociopatia, mas sem serem consideradas anormais. 

O que isso tem a ver com política internacional? Bom, nesse fim de semana um sargento dos EUA acordou cedo, se dirigiu a uma aldeia no Afeganistão e chacinou 16 civis inocentes. A suspeita é de que tenha sofrido um colapso nervoso ou estivesse embriagado. A primeira opção parece mais plausível – pra quem está chocado com a notícia, saiba que no Vietnã rolava coisa muito pior.

Dessa história, tiramos duas coisas. Em primeiro lugar, esse tipo de ocorrência de “feliz ao gatilho” (expressão que vem do inglês e que se refere literalmente à pessoa que atira sem se preocupar muito com os alvos) faz pensar em como a própria situação do militar é uma coisa aterradora. Quando um homem se alista no exército ou é convocado para a guerra, todo o processo de treinamento serve pra que ele esqueça as convenções da vida em sociedade e se torne uma pessoa capaz de matar uma outra pessoa. A morte, aquilo que é repreendido e proibido na sua vida como civil, é em última instância o seu objetivo (seja para proteger o país ou sua própria vida) na carreira militar. E, quando se pensa que o soldado do outro lado é muito provavelmente alguém na mesma situação, não é de se admirar que haja tantos casos de stress pós-traumático, ou de como um conflito prolongado e tenso como no Afeganistão mexa com os nervos dos soldados. 

Segundo, as conseqüências dessa tragédia. Os EUA não estão com retirada programada do Afeganistão tão cedo (dizem até 2014, no mínimo), e essas mortes deram ao Taleban (ou o que sobra dele) um grande fôlego para incitar o ódio aos “invasores”. Além disso, é até complicado qualificar isso como crime de guerra, de modo que muitos afegãos do lado do governo (aliados dos EUA, tecnicamente) querem que o sargento seja levado a julgamento popular pelas leis de lá. Mesmo com os pedidos de desculpas oficiais, Obama está com (mais um) abacaxi nas mãos e tensões por todos os lados complicam a estadia dos EUA no Afeganistão (e aumentam o clamor por sua saída).


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