Tragédias e Farsas Sul-Americanas

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O autor da célebre frase “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, Marx, provavelmente sorriria ao ver que sua profecia se vê cumprida mais vezes do que imaginaria. Até os mais estranhos eventos tendem a se repetir. Aqueles que raramente os palpiteiros de plantão arriscariam prever ou mesmo considerar como possibilidade viável. Contudo, essa ordem cronológica de tragédia e farsa nem sempre é real. 

No mais recente caso da América do Sul, parece que temos uma repetição, agora como tragédia, de algo que antes era farsa. O ator principal a assumir o palco na reapresentação da peça sul-americana é a Colômbia. País que, ao lado da Venezuela, está sempre sob os holofotes na mídia regional. A repetição foi de um caso bem estranho. No fim de semana passado, o presidente do país, Juan Manuel Santos, anunciou que firmaria um acordo de cooperação com a OTAN e que, futuramente, ocorreriam conversas para que o país pudesse aderir ao bloco. 

Existem, portanto, algumas perguntas que não querem calar. Por que entrar na aliança militar? Qual o benefício? Esses eram justamente os questionamentos que se faziam na região há 14 anos. À época, presidente da Argentina, Carlos Menem, havia solicitado à OTAN para se tornar um membro da aliança. Desde 1992 que vinha flertando com a aliança, sem ser levado a sério. Mas, em 1999, o país foi aceito como colaborador extrarregional. Isso ocorria no cenário de aliança automática da Argentina com os Estados Unidos em todos os campos. A proposta de dolarização da economia argentina (rechaçada pelo próprio Tio Sam, diga-se de passagem) e a entrada na OTAN eram as cerejas, econômica e militar, do bolo. Ainda assim, a proposta parecia mais uma farsa do que tragédia. Uma fala do presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso, na ocasião, ilustra um pouco isso: 

 “E é aliado dos EUA contra quem? Aqui não existe nenhuma situação de beligerância. Perguntaram-me se os EUA não venderiam os aviões F-16 aos seus parceiros. O Brasil não está interessado nisso. O Brasil quer é vender avião BEM-145 aos EUA” 

Do ponto de vista militar, os grandes rivais da Argentina já não eram tidos como tais. Os acordos e organismos bilaterais com o Chile superaram qualquer hipótese de conflito que permanecesse. E a colaboração com o Brasil no âmbito do Mercosul e dos acordos de restrição no campo nuclear (como a ABACC), também afastavam a sombra do conflito. Tensões por opções diferentes de política externa haviam, mas nada que justificasse uma aliança militar. 

O interessante é que, nos anos 1990, não existia na América do Sul nenhum bloco político de grande magnitude e nem mesmo um organismo para debate de questões de segurança. Ainda assim, a proposta foi tida, em período suposto de tragédia, como farsa pela região. 

Mas, no caso atual, o cenário é diferente. A América do Sul assiste a um processo de integração político grande, com a Unasul, e a um processo de cooperação e debate na área de Defesa inédito, pelo Conselho de Defesa Sul-Americano. Uma adesão séria da Colômbia à OTAN poderia ser a declaração de negação desses organismos pelo país. Algo que não seria tão estranho pensar já que as exigências colombianas foram o principal entrava à criação do Conselho, em 2008, e que, em 2009, o acordo militar das novas bases estadunidenses no país foram tema de uma reunião extraordinária do bloco. Algo que, no pé que anda o processo sul-americano, poderia ter ares de tragédia. 

Santos e Maduro dando as mãos mas, provavelmente, se xingando por dentro…

Por outro lado, podemos pensar que, tendo em vista o que ocorreu com a Argentina em 1999, o presidente Santos fez essas declarações para ampliar suas desavenças com a Venezuela e, em última instância, trazer as bases para reaproximações. Isso porque desde que Maduro assumiu o poder que os dois estão em constantes trocas de farpas… 

Essas são apenas dois palpites de muitos que se poderia fazer. Se a Colômbia selar ou não selar um acordo de cooperação com a OTAN, a simples indicação de que teria vontade já é indicativa de algum problema na integração para a região. Trazendo a tragédia. Já a nota da OTAN negando o interesse em ter a Colômbia como membro e as contradições do próprio ministro da Defesa colombiano, trazem, de novo, os ares de farsa. Assim, como farsa trágica ou tragédia falsa que o episódio ficará conhecido na história sul-americana.


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