Tra(d)ição

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A capacidade dos estadistas em contornar crises é um dos ossos do ofício, mas quando isso envolve problemas pessoais sempre existe uma carga dramática maior. Ontem, o presidente François Hollande da França fez um discurso semestral de balanço, no qual apontou as dificuldades e metas para a economia francesa (um tema bastante importante, já que está sendo obrigado a retomar muitas políticas de seu impopular antecessor), mas a imprensa queria saber mesmo é de seu possível caso extraconjugal com uma atriz e como fica a primeira-dama nisso tudo (perguntas das quais habilmente se esquivou).

Para situar um pouco o leitor, temos Hollande, o presidente francês, que é separado e vive numa espécie de “união estável” com a jornalista Valérie Trieeweiler (a da foto, que a rigor é a primeira-dama, apesar de não ser “oficialmente”). Porém, revistas de fofocas descobriram escapulidas de Hollande com a atriz Julie Gayet, e isso tudo resultou numa crise doméstica com Trieewieler, que está hospitalizada após uma crise depressiva. 

Parece que essa avidez por detalhes sórdidos da vida pessoal dos chefes de Estado é uma coisa bem europeia. Na França mesmo, Sarkozy dividia a vida entre a coluna política e a social por causa de seu badalado relacionamento com Carla Bruni. Já na Inglaterra, o caso mais famoso, isso chega a ser patológico e move uma “indústria” de imprensa marrom inteira. Mas basta lembrar do estardalhaço amoroso do governo Clinton para ver que não é exclusividade do velho mundo (apesar de quem os EUA têm uma tradição em garimpar escândalos de seus presidentes, mas isso é outra história).

É estranho pensar sobre isso quando falamos, por exemplo, do Brasil (quando a coisa mais parecida foi lá na época do Itamar Franco, quando tiraram fotos indiscretas da Lilian Ramos junto do então presidente no carnaval de 1994). Temos tudo para oferecer histórias picantes, mas nada estoura, seja pela falta de uma imprensa dedicada a isso (e muito mais preocupada com conchavos políticos e denúncias para todos os lados) ou mesmo de “material humano”. Na verdade, é interessante reparar que a maioria das mandatárias pelo mundo nem chega a ter um “primeiro-cavalheiro”, como a própria Dilma (tínhamos o finado Nestor Kirchner da Argentina, mas hoje o mais relevante é o Dr. Joachim Sauer, um discreto professor universitário que deve ser mais famoso pelo trabalho como químico quântico do que por ser esposo da primeira-ministra alemã Angela Merkel), o que evita uma enormidade de problemas quanto a mexericos sobre a vida pessoal. 

Afinal, qual a importância de saber se tal presidente fez voto de castidade ou vive com concubinas? Quando vida pessoal vira assunto de Estado? Existe muita história atrás disso, mas a estrutura do poder atual é uma repercussão da vida em sociedade. Espera-se “retidão” do cidadão que teve os poderes do estado investidos nele. Como confiar a cambaleante política econômica a uma pessoa que trapeia a própria companheira? Obviamente uma coisa não absolutamente nada a ver com a outra, mas existe o tal conceito do homem público, que vive para o Estado, e sua vida particular passa a fazer parte disso, especialmente aos olhos daquela entidade nebulosa chamada opinião pública. Talvez seja justamente esse resquício de patriarcalismo que facilite a vida das chefes de Estado, já que estão “entrando” no sistema de maneira relativamente recente e não precisam obedecer às “regras” do jogo – mas essa é uma discussão que vai longe. 

Enquanto isso, Hollande fica com a dor de cabeça, Trieeweiler com a depressão, Gayet com a fama, os jornais com a audiência e temas frugais, como economia e intervenções militares na África, esquecidos.


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