"Time is money"

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O México enfrenta uma situação quase calamitosa. Neste domingo, ocorreram eleições regionais no país, e o que deveria ser uma situação corriqueira em uma democracia virou uma semana marcada pelo derramamento de sangue. Assassinatos e escândalos marcaram as campanhas eleitorais e o próprio pleito, mostrando o estado de coisas no país, assolado pelo narcotráfico. Pensando na lógica das novas ameaças, o narcotráfico vira uma ameaça real ao Estado, e o México se encontra próximo disso. E, com a porosidade das fronteiras os EUA devem se preocupar (e muito) com isso.

As eleições são regionais, mas os ataques servem de recado dos grupos criminosos ao presidente. Todo esse caos teve origem com a política de cerco ao tráfico de Felipe Calderón. Eleito em 2006, prometeu o combate aos cartéis, mas o pouco que foi feito, associado à crise econômica que fez o PIB mexicano despencar, produziu resultados consideravelmente tímidos. Mesmo assim, foi o suficiente para despertar a ira do crime organizado, que nos últimos anos tem se alastrado profundamente na sociedade mexicana. A situação é absurda, com mais de 20 mil mortes relacionadas ao tráfico desde 2007. Essa situação de insegurança institucional é vista na falta de escrúpulos dos criminosos, que intimidam a sociedade com assassinatos e ameaças. A vítima mais recente e famosa foi Rodolfo Cantu, candidato ao governo de um importante estado.

E os EUA, onde entram? Pensem em uma situação semelhante à do México: o narcotráfico alastrado na sociedade, influindo na política, corrupção generalizada, desconfiança da justiça… tudo isso lembra muito a Colômbia de algumas décadas atrás. Hoje o país continua sofrendo com FARCs e tudo mais, e ainda é o maior produtor mundial de cocaína – essa semana, inclusive, chegaram a apreender uma réplica da taça da Copa do mundo feita da droga! –, mas o narcotráfico sofreu um grande abalo, principalmente na gestão Alvaro Uribe (com enfoque na segurança e coroada com a eleição de Juan M. Santos, o candidato do governo). Como um país que já teve 7% da economia baseada no tráfico de drogas reduz esse número para menos de 1%? Nesse ponto devemos dar o braço a torcer e reconhecer a ajuda do Tio Sam. O Plano Colômbia visava combater a chegada de drogas nos EUA diretamente na fonte, e a cooperação com os EUA ainda é essencial para isso (e ainda vai durar muito – lembram das bases norte-americanas?).

Se os EUA ajudaram tanto um país distante, por que não se empenham com tanto vigor no combate às drogas do seu vizinho de baixo? Afinal, só teriam a ganhar com isso – pensando inclusive na lógica das novas ameaças. Todavia, esse tipo de auxílio parece improvável. Não chega a ser uma situação em que os EUA dão as costas e o México que se vire. Mas a gravidade exigiria um auxilio profundo como o dado à Colômbia, e isso está longe da realidade. Os EUA andam mais preocupados em se afastar do México (pensem nos muros e nas leis de imigração…) do que em colaborar. Alem do mais, o México pode ser a principal porta terrestre de entrada das drogas nos EUA, mas no mundo globalizado isso não significa nada, visto que há rotas mil que se abrem e fecham em toda parte. Por fim, os EUA têm desígnios mais nobres, como salvar o mundo livre da ameaça nuclear iraniana.

Essas eleições são um breve demonstrativo do jeito em que as coisas estão. O México está por si só na manutenção de sua segurança e combate ao narcotráfico, sem expectativas de progresso em curto prazo. E, ao contrário do famoso esquete cômico, quando pedir por socorro é difícil que apareça um Super Sam com suas sacolas de dinheiro para ajudar.


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