Tibete sem Dalai?

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É possível imaginar o Tibete (“o teto do mundo”) sem a liderança de Dalai Lama (“o oceano de sabedoria”)? Em termos espirituais, efetivamente não. Porém, esta é a situação atual em termos políticos: a solicitação de Tenzin Gyatso para retirar-se das funções políticas do Tibet foi aceita hoje por seu Parlamento, em Dharamsala, local do exílio tibetano na Índia.

Tenzin Gyatso é o 14º Dalai Lama da História, denominação concedida à principal autoridade do budismo tibetano (visto como a própria reencarnação de Buda). Líder espiritual e político, sua luta pela autonomia do Tibete o tornou conhecido pela comunidade internacional e lhe rendeu inclusive o Prêmio Nobel da Paz, em 1989. Envolvido politicamente nas questões do Tibete há mais de 60 anos, seu afastamento deve ser visto como um marco histórico. Uma nova era de lutas deve se iniciar sob uma nova liderança política.

O Tibete constitui um dos principais impasses territoriais das Relações Internacionais modernas, envolvendo o gigante chinês. A disputa histórica pela região tibetana remonta ao início do século XX, sendo que sua independência nunca foi reconhecida pela China. Os interesses na região são de caráter geopolítico e estratégico, envolvendo desde as riquezas naturais locais até as ambições imperiais seculares chinesas.

Há anos que a independência efetiva da localidade não tem sido cogitada (apesar de sempre sonhada) pelos tibetanos e por Dalai Lama, sendo que as pacíficas reivindicações têm se voltado principalmente para a busca de maior autonomia religiosa e cultural. Aspectos que as autoridades chinesas se recusam a aceitar minimamente. Existe a estimativa de que o número aproximado de tibetanos mortos durante as décadas de conflitos com o governo chinês chegue a 1 milhão, sendo que o auge dos protestos ocorreu no ano de 1959 e foi relembrado em 2008.

Em 1959, Dalai Lama e a maior parte dos tibetanos foram forçados a deixar a região, exilando-se no norte da Índia, em Dharamsala. E foi lá que Dalai hoje renunciou às suas funções políticas ao alegar preocupação a longo prazo com o Tibete, considerando que as responsabilidades oficiais devam ser transmitidas a um novo primeiro-ministro eleito diretamente e com poderes mais amplos.

Foi divulgado que o Parlamento tibetano hesitou em aceitar tal renúncia, temendo o enfraquecimento da causa tibetana. Contudo, certamente o Tibete ficará apenas sem o político Dalai, mas não sem seu grande e carismático líder Dalai, símbolo da busca pela paz na região e por melhores condições de vida ao povo tibetano. Motivação para que o Tibete seja ouvido em seus anseios. Símbolo da busca efetiva por ser a mudança que se quer (e se espera) ver no mundo…


Categorias: Ásia e Oceania, Conflitos


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