Terror somali, terror africano

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Comumente, fala-se que dentro da África existem várias Áfricas. Por vezes, estas são encontradas no interior dos próprios países. Desde a partilha do continente durante a Conferência de Berlim, em 1884, entre as grandes potências coloniais do século XIX, o comportamento fratricida perdura no berço da humanidade. É africano matando africano! Conflitos étnicos, religiosos, tribais e até por recursos naturais, como no caso da disputa entre os países fronteiriços pela água do Lago Chade. E agora, também o tal do “terrorismo”. Um terrorismo que ainda não encontrou o seu lugar nas orientações da política externa norte-americana. Mas que mais é real e urgente do que a invocação de inimigos imaginários para satisfazer interesses ocultos.

A Somália é o destaque desta vez. País cuja fama recente recai sobre os casos de pirataria e o filme “Flor do deserto”, hoje sofreu um atentado terrorista. O alvo foi um hotel na capital Mogadíscio. Estima-se que 32 pessoas tenham morrido, sendo que seis delas eram membros do Parlamento. A ação foi reivindicada pelo grupo al-Shabab, supostamente vinculado à Al-Qaeda. Aliás, já se acredita na disseminação dessa rede pelo continente africano, não mais restrita ao Magreb (região que comporta os seguintes países: Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Saara Ocidental e Mauritânia).

Dois pontos chamam a atenção. Primeiro, a paz e a segurança não reinam na África em definitivo. É fato que as missões da ONU (vejam aqui a lista delas no site da organização) tenham contribuído no processo de pacificação do continente, mas permanece o desafio pendente. Segundo, a África percebeu que a integração continental deve partir da segurança, pois somente dessa maneira seria possível visar ao desenvolvimento e resolver os problemas recorrentes. A União Africana criou um Conselho de Paz e Segurança, a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental, a Comunidade Econômica da África Central e outras tantas contam com uma estrutura militar em sua composição. Portanto, há um lugar para o terrorismo nas preocupações políticas africanas, ainda pouco explorado.

É preciso estudá-lo melhor. Não é só no Magreb que ele ocorre, região até agora privilegiada pela União Européia e que logo poderá ser o foco dos Estados Unidos. É por essa região que os imigrantes alcançam a Europa e também é onde a China se lançou à procura de recursos naturais, notadamente o petróleo. Eis a fórmula óbvia: inventar um inimigo para intervir e legitimar as ações condicionadas por outros interesses que fazem do combate ao terrorismo um meio, e não um fim em si mesmo. Ainda é precipitado o uso do conceito de “terrorismo nuclear”, como consta na nova estratégia de segurança norte-americana: os atos envolvem principalmente armas e bombas. Na África, pode ser freqüentemente realimentado por diferenças étnicas, nos percalços do condomínio de Berlim. Também há o terror no continente, o que aconteceu na Somália não é um fato isolado!


Categorias: África, Conflitos


2 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Oi, Mário. Primeiramente, agradeço o elogio.De fato, acho que cabe um melhor esclarecimento e até uma modificação da parte final do texto. Mas esta fórmula não deveria ser aplicada na África, muito pelo contrário, o continente deve incorporar o terrorismo nas suas preocupações de segurança e combatê-lo. Ele não é tão valorizado nos instrumentos regionais. Acho também que a comunidade internacional - talvez com uma certa inocência de que isso seria positivo - deveria se atentar a esta temática, não apenas direitos humanos, desenvolvimento, meio ambiente, etc., para contribuir com a África. Não num sentido intervencionista (como na fórmula), mas contribuindo financeira e logisticamente para o combate.Qualquer dúvida que tenha ficado, pode perguntar.Um abraço

Mário Machado
Mário Machado

Bom o texto, mas deixou algumas dúvidas o terrorismo é um problema real que deve ser combatido ou é uma "fórmula óbvia: inventar um inimigo para intervir e legitimar as ações condicionadas por outros interesses."Contudo, existe a possibilidade de minha interpretação estar a ser incorreta. Abs,