Terra em transe

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Há exatos quatro meses atrás, quando escrevia ainda como leitor da Página Internacional, publiquei um post sobre um assunto que na época muito me interessava. Utilizando a eleição italiana como pano de fundo, discuti sobre a insatisfação com a política que varria a Europa, o que levava ao crescimento do que o jornal Le Monde batizou de “aumento dos cantões ideológicos”.

O fenômeno diz respeito ao aumento de seguidores e eleitores dos partidos de extrema-direita e de extrema-esquerda nas eleições parlamentares europeias. O momento de total descrença na politica e economia nacional e internacional geravam uma enorme crise de representação em relação aos partidos tradicionais.  A busca pelos partidos menores seria uma resposta à essa falta de identidade. No caso italiano, seguia ao aumento dos cantões a expressiva votação em Beppe Grillo, comediante italiano e líder de um partido político populista e sem expressão até as eleições de 2013.

Interessante é que, já naquela época, o fenômeno de descrença total na politica e nos partidos havia começado, e agora nada é mais atual do que essa discussão em nosso país. Os efeitos do descontentamento se expandiram pela Europa e começam a acertar a América Latina. Há duas semanas atrás surpreendeu o Brasil, que viu a maior série de protestos de sua história.

Mas o caso brasileiro é bastante específico. Diferente dos tais cantões, parece que os partidos radicais por aqui estão extintos ou se transformaram em caricaturas. Os que tentaram entrar nas manifestações sofreram. Foram expulsos por manifestantes que defendiam um movimento apartidário (anti-partidário, muitas vezes agressivo e autoritário). Foi a derrota dos partidos com pautas alternativas ao sistema econômico e político dominante. A única vitória foi de uma ou outra personalidade, como Marina Silva e Joaquim Barbosa, alçados por uma parte cada vez maior da sociedade como salvadores da Pátria e futuros presidentes.

Independente das diferenças na importância dos partidos radicais após descontentamentos na Europa e no Brasil, muitas características são idênticas nessas sociedades. Ambas as realidades passaram por momentos de crescimento econômico seguido de uma piora no quadro. No caso da UE, podemos citar o exemplo da Espanha, vista como a menina dos olhos do bloco e país mais promissor até a crise lançar quase a metade da sua população no desemprego. No Brasil, a ascensão social e ao consumo não garantiu a melhoria nos serviços. Ainda temos um péssimo transporte público e calamidades na saúde e educação. 

A melhoria de vida também não garantiu a cobertura dos direitos que deveriam ser de todos. A polícia no Brasil por vezes ainda continua a agir de forma criminosa e anti-democrática, sendo talvez o maior combustível do aumentos das revoltas e da participação da classe média e do apoio da mídia aos protestos, ao sentirem como atua essa corporação ainda nos dias de hoje.

A insatisfação não é só fruto da piora econômica e da falta de serviços e de direitos. É da total impotência da sociedade e dos políticos perante elas. Amputados pelas necessidades de um sistema financeiro maior que a democracia, os países da Europa não mediram esforços em aceitar medidas de austeridade contrárias ao salário minimo, garantias de aposentadoria e renda. A extrema-esquerda e extrema-direita cresceram exatamente sobre isso e de um discurso cada vez mais contrário ao FMI e a UE. 

No Brasil, a politica de toma-lá-da-cá reinante e medidas econômicas beneficiárias aos bancos e alguns ramos do empresariado também tem causado certo desgaste entre os políticos e a opinião pública, ainda mais quando não se observa melhoras reais dentro do país. A FIFA e suas exigências mirabolantes é a cereja do bolo da revolta.  São muitos influenciando os rumos do governo, são poucos observando a própria vontade ser representada.

Existe uma piada bastante popular no mundo das ciências humanas nos últimos dias. Estão se perguntando onde estão os economistas, que durante 20 anos dominaram as discussões e as análises sociais nos fóruns internacionais e em debates televisivos sobre política. Mas na verdade, a falta de argumentos dos economistas segue o silêncio de todos os outros tipos de analistas, incapazes de formular um modelo alternativo ao que agora parece falhar, não conseguir calar as vozes que clamam por profundas mudanças. De quatro meses para cá a situação piorou consideravelmente e não sabemos nada sobre como será o futuro. Devemos começar a pensar desde já: o que fazer? 


Categorias: Brasil, Economia, Europa


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