Teoria na prática

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Se, por um lado, popularmente se costuma ouvir que, em regra, “na prática a teoria é outra”; também é comum escutar que “toda regra tem sua exceção”. Neste post, a reflexão traz exatamente uma “exceção” a essa “regra”, apresentando a atual crise política nos Estados Unidos como uma situação em que a Teoria dos Jogos se aplica diretamente à realidade.

Para aqueles que desconhecem a Teoria dos Jogos, vale a pena acessar os textos já publicados aqui no blog e que descrevem a teoria de forma bastante clara: disponíveis neste link e neste outro link.

Esta teoria advém essencialmente da área de Exatas e há poucas décadas passou a ser incorporada às Relações Internacionais para incrementar as análises político-econômicas em termos de cálculos racionais dos posicionamentos dos atores/jogadores envolvidos. O argumento dos autores norte-americanos Brendan Greeley e Steven Brams – este último famoso teórico político na área – em relação à atual situação política dos Estados Unidos apresenta uma visão muito racional dos fatos ao aplicar a lógica da Teoria dos Jogos a esta.

Na opinião destes autores, o embate entre Democratas e Republicanos nos EUA hoje poderia ser enquadrado em um dilema de “chicken game”, e a falha nas negociações provocaria um default completo, o equivalente a um “desastre nuclear”, se considerarmos o mais famoso exemplo de “chicken game” nas RI, a Crise dos Mísseis de Cuba (1962).

Este interessante artigo pode ser lido na íntegra (em inglês) aqui e vale destacar a seguinte citação: “Obama and the House Republicans, says Steven Brams, were playing chicken this summer, a noncooperative, non-zero-sum game in which both players can lose. A compromise outcome is difficult to achieve in chicken, because it’s not stable. Brams says that each player has an incentive to dissemble, because he will achieve a better outcome for himself if he does.” (GRELEY, B., 2011).

Tal como a figura no início deste texto sugere, o ganho político seria a maior vantagem caso uma das partes se mostrasse claramente cooperativa diante de uma falta de cooperação por parte da outra parte envolvida. Mas e a possibilidade (real) de um desastre completo? Será que valeria a pena correr esse risco? Racionalmente, não. E, depois de discussões tremendas (veja aqui, aqui e aqui), se chegou a um acordo a este respeito, elevando o teto da dívida pública para evitar o “calote”.

Este dilema enfrentado pelos norte-americanos certamente não está encerrado em sua totalidade. Analisar as características dos embates internos e suas consequências a partir da Teoria dos Jogos demonstra uma interessante visão da realidade por meio de ferramentas teóricas. Perceber a aplicabilidade desta teoria na prática demonstra a importância de uma avaliação ampla da situação político-econômica dos Estados Unidos, em que as variáveis incluam as estratégias utilizadas pelos atores, os benefícios de cada possibilidade e os interesses (sempre) envolvidos…


Categorias: Economia, Estados Unidos, Política e Política Externa


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