Tempos de mudança ou mudança de tempos?

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Diz um antigo ditado que “os tempos mudam, e nós mudamos com eles”. Esse ditado ganha coro na atualidade, no entanto, é preciso verificar se a palavra mudança não se tornou clichê. Já faz tempo que todos nós ouvimos que a China será a nova grande potência mundial e que o Brasil é o país do futuro. Já faz tempo que se fala da decadência dos Estados Unidos e das grandes potências europeias. Por um lado, os chamados países emergentes – particularmente China, Índia, Brasil, Coreia do Sul – estão puxando o crescimento da economia e do comércio internacionais, por outro, a velha guarda do mundo não abandona nem as armas nem o trono. Mas, afinal, a quem pertence o poder de mando? E o que muda, muda para sempre?

Um olhar mais contido permite visualizar números importantes. Em 2010, a economia mundial cresceu 3,6%, após uma retratação sem precedentes de 2,4% em 2009. Enquanto os países desenvolvidos cresceram 2,6% em 2010, os países emergentes cresceram 7,0%. Entre os desenvolvidos, o destaque fica para a Alemanha, que registrou um crescimento de 3,6%; entre os emergentes, China, Índia e Brasil impressionaram, com crescimentos de 10,3%, 9,7% e 7,5%, respectivamente. No que se refere ao comércio internacional, registrou-se um aumento de 14,5% em 2010, sendo que as exportações e importações dos países desenvolvidos cresceram, respectivamente, 13,0% e 11%, ao passo que dos países emergentes cresceram, respectivamente, 17% e 18%. (ver o relatório da OMC sobre o comércio mundial em 2010)

Não obstante o dinamismo econômico, os indicadores sociais, na maioria dos casos, deixam a desejar. O Estado cresce de maneira descolada da sociedade e a distribuição da riqueza do crescimento não se traduz de maneira efetiva. Para se ter uma ideia em números absolutos, de acordo com a publicação da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) intitulada “Plano Brasil 2022”, houve um aumento incessante da distância entre os países desenvolvidos e os emergentes. Tendo por base os oito principais países desenvolvidos no mundo (EUA, Canadá, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Japão e Austrália), em 1988, a renda per capita média era de US$ 18.224, e a renda média dos oito principais países emergentes (China, Índia, Brasil, Indonésia, México, Argentina, Rússia e África do Sul), era de US$ 1.325. Em 2008, o número dos primeiros subiu para US$ 43.445; o dos segundos, para US$ 6.215. A diferença passou de US$ 16.889 para US$ 37.320.

Economicamente, os países emergentes vão se firmando no cenário mundial e enfrentarão o grande desafio de distribuir riqueza entre sua população que, agora, está se estagnando. Na China, para exemplificar, a população deve envelhecer antes de se tornar rica. Ou podem as pessoas morrer de fome antes de ter dinheiro para comer: atualmente, há 925 milhões de subnutridos no mundo, dos quais 906 milhões estão em países emergentes e em países pobres. Por sua vez, os países desenvolvidos melhoraram seus indicadores sociais, mas, neste ambiente de crise, enfrentam o desafio de manter tais indicadores sem ter dinheiro suficiente para fazê-lo. A grande questão é como distribuir a riqueza quando ela decresce, e isso começa com a decisão sobre qual área cortar os gastos públicos (educação, saúde, previdência, etc.) ou a quem tributar.

Por enquanto, são tempos de mudança, intensos e extensos. Para os emergentes, é uma oportunidade histórica para alcançar, não apenas números abstratos, mas melhorias reais de vida para seus habitantes. “Que seja eterno enquanto dure”, como disse Vinícius de Moraes, pertence ao domínio do amor. Na política, o amor cego e intenso pela duração compromete a perpetuação. Os países emergentes não podem se entregar aos deleites do presente, do contrário, não haverá uma mudança de tempos e um reordenamento concreto do mundo. Ruim para as sociedades, ruim para a dinâmica das relações internacionais…

Sugestões de leitura: 1, 2 e 3.


Categorias: Brasil, Economia, Política e Política Externa


2 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Oi, Mario. De fato, se pararmos para pensar, o Brasil ainda continua atrás de seus pares emergentes, quando comparado alguns números absolutos. Ontem mesmo, na Folha, saiu um artigo sobre a competitivdade brasileira. O autor do artigo apresenta que, enquanto a China aumento de 6 ou 7% para 14% a participação no PIB mundial, e a Índia de 4% para 5%, o Brasil estagnou em 2,9%. Em termos de patente, não me recordo ao certo, até vi os dados recentemente, mas esqueci. Lembro que a comparação era com a Coreia do Sul. Ainda é difícil imaginar uma alteração substancial na ordem internacional se os níves de vida dos países emergentes não melhorarem significativamente. Isso não quer dizer esses países precisam reproduzir práticas e experiências dos desenvolvidos, até porque, culturalmente, há grandes diferenças, mas devem encontrar uma maneira própria para melhorar nessa questão.Abs

Mário Machado
Mário Machado

Outro diz fiz uma provocação (um tanto amarga, admito) sobre a eficiência comercial do sul-sul. Os números mostram que a participação brasileira no comércio internacional se manteve estável no seu patamar de 1%. No turismo recebemos menos turista que Madrid. Temo que o tempo perdido pelo governo se maravilhando com o status de emergente nos faz ficar distantes da China e Índia em indicadores como patentes. Mas, pode ser minha vocação contrarianista. O fato bem capturado é que o emergentes chegaram e a crise alija os ricos, mas a diferença em nível de vida ainda é abismal. Abs,