Tempo presente

Por

E o 11 de setembro passou. Sem queima de Alcorão, sem mais atentados. O dia se foi, mas persistem as reflexões – se não pela triste memória do golpe militar de Pinochet no Chile, pelos ataques aos EUA. Afinal, completaram-se 9 anos, e análises mais profundas certamente virão quando se completar o decênio dos atentados em Nova Iorque/Washington/Pensilvânia, mas a lembrança do dia fatídico nos traz uma questão um pouco mais complexa, enveredando por uma área do conhecimento um pouco diferente das RIs.

Certamente, a maioria dos leitores se recordam com alguma clareza do que estavam fazendo no dia fatídico, até mesmo no momento em que foram surpreendidos com as imagens chocantes pela televisão ou internet. Isso comprova a natureza atípica daquela manhã de 2001 – muitos podem até nem ter ideia da importância desse fato, mas mesmo inconscientemente têm a noção de que presenciaram algo sem precedentes na história da humanidade. E foi algo tão importante que suas conseqüências estão indefinidas até hoje.

A primeira e mais imediata foi a guerra ao terror. Os EUA invadiram o Afeganistão e o Iraque, derrubaram regimes que “financiavam o terrorismo” e estão com dois abacaxis nas mãos. Estão prestes a deixar o Iraque, em frangalhos, e a solução do Afeganistão não tem nem previsão tão cedo. Outros resultados diretos do 11/09 incluíram a paranóia da segurança que fez os norte-americanos terem medo até da própria sombra, e o aumento do preço do petróleo que repercute até hoje. Todos esses são problemas que não têm consequências previsíveis em curto prazo. Há até mesmo obscuros problemas de saúde que estariam afetando as vítimas e os voluntários que aspiraram a poeira tóxica e mortal dos escombros. Quase uma década depois, essa “doença” tem seus efeitos desconhecidos. Malformações fetais? Câncer? É uma incógnita e os estudos são inconclusivos.

E quanto à História em si? Se o 11/09 afetou tantos as Relações Internacionais quanto a História, seria um daqueles pontos de inflexão como a queda de Roma ou a Revolução Francesa? Existe algo que assombra a historiografia, e é a chamada “história do tempo presente”: seria algo impossível de estudar, pois a falta de distanciamento do historiador do objeto de pesquisa e a falta de percepção de resultados em longo prazo (veja mais sobre o assunto aqui).

Por isso mesmo a angústia do 11/09: não sabemos seus resultados profundos que não sejam prospecção de cenários, mas temos a percepção de que foi uma inflexão – talvez até mesmo um novo marco na historiografia? O início de uma nova Idade, digamos, Pós-Contemporânea? São apenas divagações, mas não impossíveis. Seus efeitos ainda vão reverberar por muito tempo, e podem vir de maneiras que jamais imaginaríamos – como um clérigo exaltado que ameaçou por o mundo islâmico em ebulição com sua fogueira de livros sagrados. O importante é saber que neste momento ainda estamos vivendo os efeitos desse marco, que continua a se construir dia-a-dia. Onde vai parar? Mistério. Pelo menos até as gerações futuras receberem esse legado do presente.


Categorias: Defesa, Estados Unidos, Paz, Segurança