Tempo de Cristina

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Em seu último ato como presidente da Argentina, no ano de 2007, Néstor Kirchner proclamou uma frase célebre dirigida à sua esposa e sucessora no cargo: “Este é seu tempo”. Hoje, dois dias após seu falecimento, certamente esta frase pode nos despertar uma interessante reflexão.


Aos 60 anos, Kirchner sofreu um ataque cardíaco nesta quarta-feira que provocou sua morte repentina em El Calafate, na província de Santa Cruz (veja sua trajetória política aqui). Este foi certamente um grande baque aos argentinos, que se mobilizaram de forma notável em homenagens e mensagens de apoio a Cristina Kirchner nos últimos dias.

Cabe, pois, uma breve reflexão a respeito da importância que o ex-presidente argentino assume no contexto de seu país e do próprio continente americano. Segundo Ana Maria Stuart (em interessante artigo publicado neste livro), o sucesso do projeto de Néstor Kirchner como presidente da Argentina se explica pela conjunção de fatores endógenos e exógenos, dentre os quais podem ser destacados a personalidade do presidente, a cultura política do peronismo e a conjuntura de crise terminal enfrentada pelo país.

É importante ainda contextualizar que o estilo de fazer política de Kirchner está ligado ao fato de a democracia ser desconhecida para sua geração, de modo estas experiências influenciaram a construção de sua cultura política no poder – caracterizando o ex-presidente muitas vezes como autoritário e conflituoso. Cultura política esta em que podem ser destacados quatro principais traços de interesses, de acordo com Stuart: a valorização da integração regional (em que se destaque as iniciativas do Mercosul e da Unasul); a renegociação da dívida externa (diante da superação da paradigmática crise argentina de 2001); o crescimento econômico e as políticas públicas de distribuição de renda (exatamente para a superação do holocausto social nos anos posteriores à crise); e a política de Direitos Humanos (refletindo a perspectiva de combate à ditadura e aos seus resquícios).

Com a eleição de Cristina ao final de 2007, o prestígio de Kirchner se confirma no país, apesar das diversas críticas enfrentadas durante seu governo. O tempo de Cristina se iniciou. Muitos analistas, contudo, indicam que Néstor era o principal suporte político do governo da esposa, de forma que já se supunha uma nova candidatura sua para as próximas eleições presidenciais.

Com seu falecimento, eis que Cristina enfrenta o grande desafio de manter sua força política e construir uma identidade própria diante do povo argentino, desvinculada da imagem do marido: isto é, construir (efetivamente) seu próprio tempo. Tempo que, vale destacar, poderá se estender por mais alguns anos, pois – ainda que em meio a velórios e homenagens – o nome de Cristina Kirchner já é indicado à reeleição para 2011…


Categorias: Américas, Política e Política Externa


1 comments
Anonymous
Anonymous

Parabéns, Bianca.Matéria muito bem elaborada.Interessante a frase do ex-presidente : Nestor C.Kirsner, " este é seu tempo".É importante termos o nosso tempo.E marcar este tempo com frutos positivos.Bençãos Divinas sobre voce e a equipe da Pagina Internacional ( P.I.)Forte abraço,Harley