Tempestade constante, calmaria distante

Por

Diz-se, para acalmar os ânimos daqueles envolvidos em conflitos duradouros, que o fim de longos períodos de tempestade acompanha o inicio de uma calmaria. Espera-se sempre que sim. Todavia, na Costa do Marfim, é difícil vislumbrar um fim para os conflitos. Se a esse cenário, o provérbio pode não ser usado em sua forma original, uma releitura sua poderia adaptar-se bem à tensa situação.

Nas décadas de 1970 e 1980 o país era tido como uma jóia rara em meio ao solo africano de pedras rígidas e sangrentas. Sob os auspícios de Félix Houphouët-Boigny, líder do país desde a independência, a Costa do Marfim crescia cada vez mais rica e com estabilidade invejável (para mais visitem esse interessante artigo da revista The Economist).

Com o falecimento de Boigny, em 1993, as instabilidades ampliaram-se e as rusgas entre grupos étnicos cresceram, até o estouro de uma guerra civil em 2002. Dada a situação do país, o então presidente, Laurent Gbogbo, não pode conduzir as eleições no ano marcado de 2005. E os anos seguintes foram marcados por constantes postergações no pleito. Em um período de cinco anos, remarcou-se seis vezes.

O desfecho dessa tempestade não foi uma calmaria e sim mais raios e trovoadas. Observa-se a coexistência de dois presidentes. Aquele que luta para manter-se no poder, Gbagbo, e aquele que luta por seu direito de assumí-lo, Alassane Ouattara. Ao observar-se o histórico construído nos últimos anos, é possível perceber que o longo processo de instabilidades no país alimentara uma fome insaciável por poder de Gbagbo.

Os eventos recentes motivaram as Nações Unidas a ampliar o número de peacekeepers no país e repercutiram em fortes pressões externas, especialmente da União Europeia e de países da União Africana. Assim, foi construído um novo cenário que oscila entre o genocídio e a disputa política (como afirma um interessante artigo da Foreign Policy). Enquanto dois protagonistas lutam pelo poder, centenas de coadjuvantes lutam pela sobrevivência, quando forças policiais de Gbagbo eliminam opositores e provocam mais destruição.

O cenário está dado. As opções para findar a crise são escassas e oscilam algum lugar entre a intervenção militar e sanções comerciais. É difícil optar por uma violação da soberania da Costa do Marfim e é provável que o país seja condenado ao ostracismo até que Gbagbo desista de sua empreitada. Qualquer que seja a opção, militar, diplomática ou comercial, os castigados ainda serão aqueles que há uma década experienciam guerras: a população. E em casos como esse, quando a tempestade é quase a normalidade, a calmaria torna-se uma memória distante, quase que esquecida.


Categorias: África


1 comments
Ivan de Castro
Ivan de Castro

Olá, me daria a honra de conhecer meu blog?falo das questões da política internacional com humor, entremeado por posts e montagens engraçadas.http://migre.me/3L2qK