Teimosia Internacional

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Tem gente que fala que o pai, irmão, amigo, etc. são pessoas “teimosas”. Que essas pessoas se recusam a aceitar verdades e se adequar a elas ou idéias que poderiam fazer toda a diferença e deixar as coisas mais fáceis. A comunidade internacional não é muito diferente.

Na teoria política (e porque não nas análises de botequim?) é muito comum associar características e comportamentos humanos as ações dos países, sendo que existem horas que chega a ser impossível não fazê-lo. Afinal, o que explicaria a contínua relutância de diversos países em assinar acordos ambientais que podem salvar suas economias em um futuro próximo? “Mas daí nossas economias entrarão em colapso! Nossas empresas irão a falência!”

Sim, empresas e setores entrarão em colapso. Mas até onde eu saiba, existe uma equipe sensacional dentro dos ministérios que é capacitada no desenvolvimento de planos econômicos que poderia desenhar formas desse dinheiro e pessoas transitarem para outros negócios. Como pudemos ver no… reconhecimento da China como economia de mercado! Nossa equipe sensacional conseguiu… conseguiu… ahn… aumentar pouco o poder de compra nacional e falir várias empresas… Não faz sentido agora, né tomadores de decisão? A não ser que estivessem escondendo algo da população ou fazendo um jogada ainda mais complexa…

Voltando a teimosia, que outros exemplos poderíamos usar? Que tal interferir no país alheio com tropas democráticas?

Ou… sancionar economicamente (de leve) um país pois ele teoricamente pode talvez chegar um dia a produzir armas nucleares? Aliar-se a um governo instável com guerra ao vizinho que possui armas nucleares? Afinal, eles são super táticos e conseguem impedir o Taleban…

Poderia escrever um livro, monografia, mestrado (e se alguém usar essa idéia, é bom me citar!) cheio de casos em que a solução clara e óbvia não é seguida. Por sinal, se fosse escrever mesmo, já adianto aqui em primeira mão a tese central:

“Se a solução é clara, as razões para não adotá-la são no mínimo, escuras, cinzentas e trariam vergonha aos eleitores.”

E trazem. Porém, como nós humanos somos tão teimosos quanto os países, acabamos por cometer os mesmos erros mesmo quando sabemos disso…


Categorias: Política e Política Externa


3 comments
Luana
Luana

Interessante discussão! Parabéns pelo blog!

Ivan
Ivan

Antes de tudo, parabéns no comentário, muito bom."[eles] nunca usariam seus próprios argumentos de liberdade e humanidade democráticas para si mesmo, quando em realidade, interesses mais intrínsecos estão em jogo, como indústria bélica, ou mesmo, manutenção da identidade nacional, "É interessante ver como esses interesses intrínsecos fazem parte de uma lista fechada que não permite a entrada de nenhum outro além. Tudo em nome da grande e saudosa sobrevivência estatal. Creio que caso hoje algum presidente realmente inovador fosse redesenhar as necessidades básicas do estado, essa ordem de prioridades mudaria junto com a entrada de novas perspectivas. Pois afinal, da mesma forma que para nós, "realmente" humanos, chega a ser um martírio adotar hábitos que sabemos que são melhores para nós e para o planeta e mesmo assim hesitamos em adotá-los!Chega a ser deprimente pensar que para mudar a essência dos Estados, precisamos primeiro rever a humanidade de cada um de nós...

Arthur Macedo
Arthur Macedo

A teimosia dos países, creio eu, assim como você, Ivan, seja oriunda da característica humana citada nesse artigo, igualmente teimosa. Contudo, me parece, que caberia citar a lógica do sistema internacional, porque sendo constituido por Estados (ainda que não só, mas pelo artigo tratar de países, focarei nos Estados), e por isso mesmo, ser o Sistema Internacional anárquico, onde todos buscam fazer valer seus interesses, não só no âmbito interno da política de cada país, mas também fazer frente, e fazer valer, seus interesses na política exterior. O que quero dizer, de modo simples, é que a lógica do sistema ata as "mãos" dos países, no sentido de haver todo um bastidor que enviesa a tomada de decisões dos dos chefes de Estado, independente de quem sejam, ao que me parece. Observando Weber, e o "ente" que reivindica com êxito o monopólio legítimo da violência, senão para sobreviver, ainda que não possa (teoricamente) fazer isso no sistema internacional, o fará por meio de teimosias, lastreadas em outras características humanas como orgulho, vaidade, que por sua vez ainda, fitam poder, domínio, aspirações a graus de superioridade, e isto, ao cérebro humano, parece mais razoável a ser feito, do que pensar no bem da humanidade, em seus sentidos puros, ainda que isso soê ingênuo. Mas, entenda, a teimosia para eles, ao que me parece, poderia ser considerada fator de humilhação, o que em lógica própria, nunca usariam seus próprios argumentos de liberdade e humanidade democráticas para si mesmo, quando em realidade, interesses mais intrínsecos estão em jogo, como indústria bélica, ou mesmo, manutenção da identidade nacional, nem mesmo abririam antecedentes para serem constestados mais tarde, nem sobre outros assuntos.Ao que me parece, e não pretendo me estender mais, pois este assunto ainda abre inúmeras e infindáveis discussões, mas, ainda que Weber estivesse certo quanto ao Estado, e talvez até Waltz em relação a estrutura internacional na concepção neo-realista, onde tal estrutura seria coercitiva, e sempre seria a mesma, penso eu, que esse comportamento mesquinho, em arvorar-se sábios do mundo(Estados), que podem por seus interesses mandar e desmandar, ainda que para isso o mundo tenha que pagar pelos visíveis prejuízos, acredito que em tempo, Weber, terá de mudar seu conceito, pois muitas vezes, o esforço de um Estado faz em manter-se "vivo", em verdade se torna sua própria negação, e ele com isso, mina seu próprio futuro, como você mesmo destacou Ivan."É esperado que os médicos façam sua arte no sentido de ajudar com seu ofício os doentes, e não os sãos, assim como os governantes, que governem para seus governados, e não para atingir interesses próprios de Estado, deste modo, é característica do Justo fazer bem a todos, e não mal aos injustos, só por praticarem injutiça."(PLATÃO - A República)Quem dera se os governantes, governassem para os seus de fato, e não pela sobrevivência do Estado, quem dera não fossem "teiomosos".Seres humanos sem nenhuma humanidade aparentemente visível!