Teatro de Guerra

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Orson Welles ficaria orgulhoso. No último fim de semana, a Geórgia protagonizou uma re-encenação lamentável da famosa transmissão radiofônica do mitológico diretor norte-americano, na década de 30. O excepcional neste caso foi a abrangência do fato – se a transmissão de Welles estava limitada às ondas de rádio em algumas cidades, o “documentário” georgiano foi visto pela televisão no país todo. Mas, em vez de descrever uma suposta invasão alienígena baseada na clássica obra de H. G. Wells, o que se viu nas imagens do canal Imedi foram tanques de guerra russos rumando para a capital Tbilisi e a notícia do assassinato do presidente Mikheil Saakashvili, sem qualquer identificação durante a transmissão de que se tratasse de uma obra ficcional – apenas antes do início um aviso de que se tratava de uma “simulação”. Bem como na traquinagem de Wells, o pânico se instaurou imediatamente, mas em uma escala absurdamente maior. As linhas telefônicas do país acabaram emudecendo pelo número recorde de chamadas para serviços de emergência.

Apesar dos pedidos de desculpa pela emissora, o estrago já estava feito. Se uma invasão alienígena nunca ocorreu (ao menos até agora…), há menos de três anos tanques russos atravessavam as ruas da Geórgia, uma memória ainda recente naquele país. E essa transmissão veio apenas a atrapalhar o complicado processo de pacificação da região. Condenado por autoridades russas e norte-americanas e pela oposição, o programa faz ressurgir o pavor nos georgianos, justamente no momento em que as tensas relações diplomáticas entre os países rumam para um aparente entendimento. Recentemente, houve a reabertura da fronteira terrestre com a Rússia, após três anos, no único ponto em que os limites territoriais não atravessam as províncias separatistas da Ossétia do Sul e Abkházia.

Qual teria sido a razão para esta insensatez? A oposição culpa o próprio governo. O programa tinha sugestivas premissas como “isso poderia acontecer um dia” e “o pior dia da história da Geórgia”. Aparentemente, condiz com uma resposta da situação (o presidente da emissora é aliado de Saakashvili) à arriscada busca pelos opositores de fortalecer os laços com Moscou em visitas recentes de cunho “político”, principalmente no que tange ao tema das províncias separatistas.

Além do absurdo da situação, em que uma farsa é exibida em rede nacional e com a aparente complacência do governo (que nega participação e até criticou o fato, mas cujo presidente teria afirmado que o desagradável filme estria muito próximo de uma “realidade possível”), o caso citado mostra como a política pode ser complexa em um ambiente de democracia menos consolidada. Resta ainda saber o que vai tocar à Rússia, que anda buscando soluções com menos força e mais conversa (como na Ucrânia), e se a reação ao evento pode desencadear o reforço das suspeitas contra a Rússia ou se vai ser superada pelo povo georgiano no indispensável processo de pacificação da região.


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