Tarda… mas não falha?

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Nessa última semana relativamente histórica, em vários eventos deram fim a processos longos (o fim dos 9 anos de ocupação dos EUA no Iraque, a morte do longevo ditador norte-coreano…), o anúncio da entrada da Rússia na OMC não foge a essa regra – o processo estava em negociação há cerca de 18 anos já. Na verdade, tecnicamente, a Rússia ainda não entrou – sua adesão foi autorizada, e o processo de adequação ainda vai demorar até a acessão definitiva no meio do ano que vem. Muito longo, diga-se de passagem, mas o esperado em uma organização em que a entrada de novos membros tem que ser negociada em acordos bilaterais com todos os demais e aprovada por consenso na Conferência Ministerial.

Em tese, a entrada da Rússia na organização (uma meta antiga de Moscou, que tenta isso desde o momento em que a OMC foi criada) é boa para todo mundo: abre-se um mercado consumidor com potencial bastante elevado, criam-se empregos e atraem-se investimentos no maior país do mundo, e aumentam as possibilidades de acesso para parceiros comerciais. Isso sem contar que é uma meta da OMC em si garantir o peso de mercados em desenvolvimento na discussão da liberalização comercial, e a Rússia (em especial ao longo dos governos Putin-Medvedev) é um dos mais expressivos nesse quesito. Para o Brasil, em especial, o interesse é na liberalização do comércio – seria o fim das barreiras sanitárias e das cotas aleatórias que são aplicadas esporadicamente a produtos brasileiros?

Esse é o problema. O grande benefício dessa entrada para o Brasil, a esperada redução no protecionismo russo, não vai ter muitos efeitos justamente pelo modo como as negociações foram conduzidas: a Rússia vai manter barreiras e taxas elevadas, que só vão cair pra lá de 2018, e em setores mais estratégicos como a carne permanecerão cotas. Ao mesmo tempo, com a adesão a Rússia vai estar sujeita aos mecanismos de defesa comercial (que o Brasil conhece muito bem) e vai ter de aprender como funcionam as coisas no sistema multilateral de comércio a duras penas. A Rússia entrando na OMC é um desejo antigo e ao mesmo tempo um desafio para o país, e o tempo dirá quais as conseqüências econômicas (e políticas) dessa adesão.


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