Tanto faz, com ou sem Bin Laden

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(Pessoal, uma observação: mais tarde eu posto os links para este post.)

Certamente, o momento é propício para debatermos um pouco mais sobre o significado da morte de Bin Laden para as relações internacionais, em seguimento ao post de ontem do Álvaro, principalmente em função do mote por ele escrito: “um evento que muda muita coisa, sem mudar nada.”

A morte de Bin Laden é muito mais um acontecimento folclórico do que histórico. Não quer dizer que os Estados Unidos triunfaram na “guerra global contra o terrorismo” e tampouco que se abriu uma janela para paz, como previram muitos líderes mundiais que celebraram o fim do terrorista. Isso também não significa uma “onda global de ataques terrorista”, como se tem veiculado na mídia. O que aumenta é a frenesi, o medo, o desconforto a respeito de uma ameaça que figura muito mais no plano retórico e que pouco se consuma na prática. Ademais, lembremos que o pior inimigo é aquele que não ameaça, tornando-o imprevisível.

Em recente artigo, Scott Stewart afirmou que, no pós-11/09, a Al-Qaeda travou as suas batalhas mais no campo ideológico do que no físico. Procurou disseminar a sua doutrina, conseguir mais seguidores e até modificar a sua própria estrutura organizacional. Ora, Bin Laden se tornou um símbolo, a personificação do terrorismo, mas o fenômeno não se restringe a uma pessoa ou grupo, como a Al-Qaeda. E, mesmo sem uma figura mítica, a organização não se desorganiza. Suas células auto-reprodutivas, sem comando hierárquico claro –basicamente, o seu amiguinho pode ser terrorista e você não sabe –, permitem a continuidade da Al-Qaeda.

E nada de sentimentalismo barato também, do tipo “agora a Al-Qaeda vai se vingar da morte de Bin Laden”. Terrorista não tem coração, tem fanatismo. Luta por uma causa desde sempre, conduz a política por meio da difusão do terror. Um ataque terrorista depende muito mais das capacidades de que os seus grupos dispõem, determinando seu raio de ação e o grau de impacto, do que de estímulos exógenos.

No front ocidental, entre festejos e preocupações, a discussão que deve entrar em tona é acerca da estratégia na luta global contra o terrorismo. Nos últimos tempos, a grande preocupação tem sido sobre a possível aquisição de armas nucleares por grupos terroristas. Mas agora será preciso se preparar para ataques em massa, convencionais ou nucleares? Como fazê-lo? Quais os aliados? E as relações entre Estados Unidos e Paquistão? Se a Al-Qaeda tivesse bomba atômica (como pensam os teóricos da conspiração), já teria usado. Não esperaria dez anos. A costura de alianças pode ser interessante, a começar pela postura que os norte-americanos adotarem em relação ao Paquistão.

Enfim, de fato, o terrorismo perdeu o grande símbolo que o elegeu como prioridade na agenda internacional no emergir do novo milênio. Mas os símbolos são apagáveis, substituíveis. Um atentado aqui, outro acolá, inevitavelmente vai acabar remetendo à morte de Bin Laden, acentuando a miopia de enxergar o fenômeno como um todo. Sem destrinchar o processo pelo qual ele ocorre, desde o tratamento discriminatório que, em geral, é conferido ao mundo árabe até a organização e preparação dos grupos terroristas, o mundo vai girar em torno de Bin Laden. É preciso “despersonificar” o terrorismo de Bin Laden…


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2 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Mario, peço desculpas pela demora em responder o seu comentário. Na verdade, comentar o seu comentário. Com certeza, uma figura como Bin Laden não é fácil de achar, mas não acredito que sua morte leve a uma mudança na estrutura organizacional da Al-Qaeda. Pode, por hora, inflamar o ódio nas pessoas e essas coisas todas, é natural que isso ocorra, mas em relação à perspectiva de um atentado de grande monte, eu acho difícil. Do 11/09 para cá, as ações terroristas se deram por meio de ataques esporádicos a uma embaixada, local púbico e até tentativas frustradas, como o nigeriano que embarcou naquele avião próximo ao Natal.Sobre as outras lideranças, no geral, permanecem escondidas. São importantes na sucessão de Bin Laden, evidentemente, mas também não podem esperar uma 'longa vida'. Abraços

Mário Machado
Mário Machado

Não sei acho que o impacto da morte dele é maior do que dá pra perceber agora como foi a morte do Líder da Al-Qaeda no Iraque um líder carismático não é fácil de substituir e sem um líder assim a causa perde atratividade e financiamento. Num ponto de vista operacional o fato de terem chegado até ele significa que os candidatos a seu posto terão que ficar ainda mais "underground" e com comunicações mais complexas. Isso não vence o terrorismo, mas a própria reação morna a morte dele é um sinal que o moral extremista está baixo. Abs,