Suspeitas e verdades

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Vivemos em tempos turbulentos. Há pouco mais de uma semana, ninguém sugeriria uma relação entre suspeita envolvendo espionagem estadunidense, pouso forçado de um avião presidencial, e um verdadeiro incidente diplomático de grandes proporções. Estes três elementos foram recorrentemente vistos em um mesmo texto nos últimos dias e o assunto ainda vai chamar a atenção por um tempo dada não apenas a gravidade do caso, como também as polêmicas que este envolve.

Para quem não acompanhou o acontecimento, a verdade é que há alguns dias o presidente boliviano Evo Morales foi forçado a pousar emergencialmente na Áustria após ter o espaço de voo negado por França, Espanha, Itália e Portugal diante da suspeita de que o polêmico Edward Snowden estaria também a bordo. O ex-agente da CIA alcançou o patamar de “procurado internacional” desde que tornou públicas informações sigilosas envolvendo o sistema de monitoramento de dados de comunicação do governo dos Estados Unidos. (Veja ótimos posts recentes no blog sobre esse assunto aqui e aqui.)

Talvez o mais impressionante da situação tenha sido a decisão destas potências europeias de impedir o trânsito de um chefe de Estado apenas diante de uma suspeita – infundada e cuja origem “oficial” ainda é desconhecida, apesar de não ser difícil de acreditar que haja um dedo yankee nessa história.

O impacto internacional desse incidente diplomático ainda está sendo sentido e a América Latina – fazendo valer finalmente sua voz em peso – tem expressado duras reprimendas e exigido esclarecimentos por parte dos países europeus envolvidos. A verdade é que Evo Morales representa, de fato, a Bolívia, e a Bolívia nada menos representa do que a América Latina no cenário internacional. Princípios básicos do Direito Internacional foram absolutamente desconsiderados nesse contexto diante do qual se pode visualizar a “aliança” – ou para os mais críticos a “subserviência” (interessante posicionamento por parte do sociólogo Boaventura de Sousa Santos aqui) – de certos países em relação aos Estados Unidos.

Ontem a Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovou por consenso resolução que condena a situação, alguns dias após a Declaração de Cochabamba divulgada em nome da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e declarações individuais por parte de vários Estados (veja a reação do Brasil aqui).

Com pedidos de asilo já agora aceitos na Bolívia, na Venezuela e em Nicarágua, o nome de Snowden certamente ainda será ouvido por muito tempo. Tentativas do governo estadunidense de calá-lo ou impedi-lo de se locomover de alguma forma ainda revoltam ao tornarem clara a perspectiva – com frequência suspeitada – de que muito mais do que imaginamos permanece ainda sob o controle dos Estados Unidos, em um mundo tão globalizado que tenha paradoxalmente liberdades tão (tacitamente?) restritas. Diante de tantas suspeitas, esta talvez seja a mais pura verdade… 


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