Sua Santidade, o Papa?

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Hoje foi iniciado o Conclave, espécie de reunião e ritual que sempre define o novo Papa. Como de costume, há uma grande cobertura midiática sobre o evento e há uma multidão acampada na Praça de São Pedro que o acompanha ao vivo. Mesmo com o abrandamento da influência da igreja Católica no mundo, a escolha do próximo líder religioso e chefe de Estado do Vaticano ainda é assunto dos mais importantes. 

O interesse pelo conclave foi aumentado pela renúncia do atual Papa Bento XVI. Durante mais de 600 anos, apenas a morte havia sido capaz de destronar os eleitos ao cargo. O fato ganha ainda mais repercussão pela série de denúncias contra a igreja Católica, que podem ter influenciado na decisão de deixar o cargo. As causas de sua desistência ainda fogem ao conhecimento do público e, ao que parece, as suas motivações serão um mistério nunca revelado, alimentado apenas por teorias que mesmo somadas não serão capazes de elucidar toda a realidade. Mesmo assim, o acontecimento torna ainda mais visível as manchas causadas pelos erros de alguns membros da Igreja, denunciados por meio da imprensa e do vazamento de documentos secretos do Vaticano

Os casos denunciados, a maioria de pedofilia e corrupção estão longe de serem os maiores escândalos da história da Igreja. Manchas como a condescendência em relação à escravidão negra, a perseguição de outras crenças nas Inquisições ou o apoio regional ao Nazismo e outros modelos políticos catastróficos estão entre os erros maiores durante sua história, reconhecidos muitas vezes por seus próprios lideres. 

Evidente que todas as instituições estão sujeitas aos erros de seus membros. A religião não foge á regra. O problema é que a Igreja não soube lidar ainda com a transição entre instituição inatingível até alvo fácil das mais variadas críticas e acusações. Aliás, todas as dificuldades atuais da igreja só são aumentadas pela falta de capacidade em admitir a sua face humana. Tentativas forçadas de acobertar crimes de padres, denúncias de corrupção e de desrespeito à crença do celibato pioraram ainda mais os casos que vieram ao conhecimento popular. A Igreja não consegue lidar com a sua perda de poder, a limitação que agora a atinge. 

A queda do número de fiéis também parece um fenômeno bastante explicável em relação a falta de novas maneiras de atração a religião. Durante décadas, a massificação de sociedades inteiras como seguidoras da mesma fé foram sustentadas pelos papéis exercidos pelo Estado, a Família, a Escola e da própria Igreja, os antes tradicionais Aparelhos Ideológicos. O mundo moderno é exatamente o oposto, é o da pulverização desse tipo de controle de identidades. O presente chega a transformar o Conclave em espetáculo midiático e os segredos dos corredores do Vaticano em espaço para um reality show de espionagem e denúncias. 

A falha de Bento XVI quanto ao diálogo bem sucedido entre Igreja e sociedade também são claros. A sua defesa ao sexo apenas para reprodução, o não uso de métodos anticoncepcionais ou a abstinência sexual antes do casamento foram tratados pela maioria com revolta ou indiferença. Isso apenas para citar a decadência do poder papal em influenciar a sexualidade das pessoas. A igreja Católica ainda busca transmitir uma solidez anacrônica, para a maioria inaceitável. Enquanto isso, o restante de sua influência ideológica patina, quase desaparece, restando apenas seu ainda vasto poder político e financeiro, a maioria de origem tão obscura quanto as denúncias que pipocam na imprensa. Mais obscuro ainda é o futuro da Igreja como formadora dos valores morais e éticos ocidentais.

Os desafios do próximo chefe de Estado do Vaticano e líder da maior religião do mundo são muito maiores do que aparar arestas das denúncias e crises da igreja Católica. Na verdade, ele terá que provar que sua instituição consegue se inserir e sobreviver à nova realidade mundial, muito mais hostil aos seus interesses e regras, e ainda por cima sem o poder gigantesco que no passado justificaram os seus malfeitos.


Categorias: Mídia, Polêmica


1 comments
Lucas Castro de Silvero
Lucas Castro de Silvero

Excelente artigo!Inclusive, gostei muito de outros artigos que também li no blog. Ainda não conhecia e fico feliz que tenham feito essa expansão de divulgação até a unicamp.