Sopa de letras

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Um dos grandes desafios para alguém que se aventure pelo mundo das relações internacionais é conviver com o emaranhado de siglas, que para piorar são alteradas de acordo com o idioma do seu interlocutor. Vai perguntar para um inglês o que ele acha da OMC. Provavelmente, ele nunca terá ouvido falar desta organização, a não ser que você explique que é a WTO dos anglófonos.  

No âmbito regional, não poderia ser muito diferente. Algumas são muito presentes, pelo menos no noticiário, como o Mercosul e a UNASUL. Contudo, há igualmente outras que não recebem tanta atenção, exemplos de IIRSA, CASA, CALC, CELAC. Apesar das complicações, todas corroboram a importância da cooperação na América Latina e Caribe, acentuando suas contribuições para a consolidação da região como zona de paz, estabilidade democrática e desenvolvimento dos povos.  

Retomando a perspectiva histórica recente, exploraremos o mundo das siglas. Em 2000, o Brasil propôs a realização de uma reunião entre presidentes da América do Sul com o intuito de discutir questões de interesse regional. A proposta foi aceita e a reunião, a primeira no formato, foi realizada em Brasília. O resultado concreto, além de reafirmar visões e sentimentos compartilhados, foi a Iniciativa para Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). Este projeto visava a redução de assimetrias entre os países-membros.  

Já em 2004, foi realizada a II Reunião entre presidentes da América do Sul. Assim, originou-se uma proposta mais ambiciosa, a criação de uma Comunidade de Estados Sul-Americanos (CASA). De novo, proposta brasileira. A IIRSA foi agregada a esta nova iniciativa. Finalmente em 2008, a CASA foi oficializada por meio de um Tratado Constitutivo, conferindo-lhe personalidade jurídica de Direito Internacional, mas com uma alteração de nome para União das Nações Sul-Americanas (UNASUL). Posteriormente, a IIRSA seria integrada ao Conselho de Infraestrutura e Planejamento (COSIPLAN) da UNASUL.  

Por fim, chegamos a nossas últimas siglas. O governo brasileiro propôs outra reunião de alto nível, desta vez para os países da América Latina e Caribe. Assim, organizou-se a I Cúpula da América Latina e Caribe (CALC), em 2008. Dois anos depois, formalizou-se outra iniciativa de integração que congregou os legados e trabalhos do Grupo do Rio (voltado para a concertação política) e a CALC (voltada para o desenvolvimento e a integração). Era a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), constituída em 2010. Desta forma, seria um ponto de encontro para discussão de questões regionais sem a participação de outras potências.  

Fica evidente uma certa insistência brasileira com relação aos projetos de integração regional. Na Constituição Federal de 1988, a busca por integração com os povos da América Latina está consagrada como um dos princípios que devem reger as relações internacionais do Brasil. Contudo, esta englobaria também as esferas social e cultural. Nesse sentido, os novos projetos vão em duas direções principais, além da econômica. Primeiro, buscam construir uma identidade regional (caso da UNASUL) ou ampliar suas bases sociais (exemplo do Mercosul com Estatuto da Cidadania). Por outro lado, apresentam um viés pragmático ao incluir posições brasileiras relativas à reforma da ONU e contrárias aos subsídios agrícolas (art 8º e 16º da Declaração da I CALC). 

Mesmo no emaranhado de letras e siglas, a diplomacia brasileira não se perde.  


Categorias: Américas, Política e Política Externa


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