Somos populistas?

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Uma frase é recorrente quando se fala em política na América Latina: isso é populismo ou esse líder é um populista. Em geral, sem querer qualquer tipo de julgamento, há uma tendência a enxergar paralelos entre líderes vinculados a esquerda (ou socialismo do século XXI) e políticas entendidas como populistas. Aí surge minha questão, afinal, somos ou não?  

Primeiro, nos cabe um esclarecimento. São três os elementos base, de acordo com as análises sociológicas, para definir o que significa esse termo: massificação de camadas da sociedade e desvinculação das mesmas de seus grupos sociais; perda de representatividade da classe dirigente; e o aparecimento de um líder dotado de grande carisma. A primeira vista, portanto, não seria necessariamente fenômeno negativo, certo?  

O sociólogo Jorge Ferreira vai além, ser considerado populista no Brasil do início do século XX era um elogio. Ao contrário do atual estigma, eram considerados amigos do povo, ou seja, ouviam suas aflições e atendiam seus anseios. Assim, a população encontra em certos líderes carismáticos uma saída ao processo político tradicional, em outras palavras, uma forma de ver suas demandas atendidas por seus representantes. Tal dinâmica nos leva a refletir sobre o seu contexto. Getúlio Vargas, o pai dos pobres, governou o Brasil quando nos transformávamos em um país baseado nas cidades, não mais no campo, ao passo que na economia vivíamos o período da substituição das importações. De certa forma, este é um processo geral latino-americano no período.  

Mas então, por que o populismo (ou já um neo-populismo) tem sentido pejorativo no século XXI? Ainda de acordo com Ferreira, líderes da direita e da esquerda, identificaram uma tendência que funcionou como chave para tomar posse completa do Estado. Países varridos por uma desigualdade social endêmica, uma sociedade civil inativa e uma classe trabalhadora fraca; que logo se tornaram alvo fácil para manipulação e cooptação. Não bastassem as dificuldades sociais estruturais que a América Latina vivia, muitos países enfrentaram períodos de repressão comandados por militares. Uma vez retomada a democracia, os grupos tradicionais e conservadores viram suas lideranças não se renovarem, ainda fechadas como antigas oligarquias. Desta maneira, a América Latina foi “prato cheio” para lideranças carismáticas que ofereciam um caminho diferente dos conservadores, frente a um povo aflito e cansado de ser reprimido.  

Depois desta breve digressão, voltamos a nossa pergunta. A partir dos critérios expostos por sociólogos, me parece plausível responder que sim. Mais que isso, este é um fenômeno relacionado à história da nossa região. Ainda que alguns defendam que os atuais líderes populistas são enganadores e demagogos que utilizam o povo ao invés de defender-lo, são escolhas, na maioria das vezes, da população de seus países. Entre o tradicional e o populista, ficamos com os populistas. Em que pese radicalismos – presentes em qualquer ideologia –, é um modelo efetivo de posicionar-se politicamente na América Latina, na qual o povo ainda tende a ver o governo como um “pai”. Para terminar deixo uma última questão, estão atendendo verdadeiramente aos anseios do povo ou a retórica e o discurso funcionam mais que a prática?


Categorias: Américas


4 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Eu tendo a ir num sentido oposto a análise acima. Permitam-me levantar uma questão polêmica, resultado de uma reflexão imediata, devo confessar, mas para instigar o debate.Não penso que o populismo se espalhou por toda a América Latina, e sim que a dita "esquerda" se disseminou pela região. Motivo, aliás, muito bem apontado no post, visto que chegamos ao final do milênio anterior com um índice de 40% deexclusão social, de acordo com os dados da CEPAL.Voltando ao populismo, a própria raíz etimológica da palavra traz consigo a idéia de "povo", o que não se verifica em alguns casos, noutros não. Na Bolívia, é mais evidente com a chegada de Morales; no Brasil, nem tanto. Há dois cientistas políticos que trabalharam com o conceito de populismo de acordo com a incorporação das massas à arena eleitoral. Quando a incorporação se deu a partir das massas, podê-se constatar o fenômeno, ao passo que quando o Estado que o fez, recaiu em "assistencialismo", recobrando os padrões clientelísticos latino-americanos muito comuns no século XIX.O que cada vez mais percebo na América Latina é a chegada de uma esquerda ao poder que converteu o Estado em Estado assistencialista, praticando políticas sociais como medida compensatória residual da busca de outros interesses, sobretudo econômicos - expansão do empresariado no mundo - e, às vezes, próprios - como a perpetuação no poder. É isso aí, por enquanto. Abraços

Mário Machado
Mário Machado

Nesse sentido vale ler sobre Peronismo e Era Vargas.

Luís Felipe Kitamura
Luís Felipe Kitamura

Oi Camila!Muito obrigado por seu comentário.Devo admitir, em primeiro lugar, que não sou um grande especialista da sociologia mas tentarei esclarecer o ponto que você levantou.Acredito que quando se fale em massas (ou massificação) estamos enfocados nas camadas populares. De fato, há grupos sociais que rejeitam os líderes popolistas. Assim, desvincular-los de seus grupos sociais funcionaria como uma forma de unificar demandas. Ou seja, antes das camadas sociais haveria um grupo único: os descontentes com a política tradicional e que não conseguem ver suas demandas atendidas. Espero ter ajudado,

Camila L. L.
Camila L. L.

Muito legal o seu texto, Luís! Ver a fundamentação sociológica de um conceito que os críticos políticos (quase todo mundo) usam de qualquer forma, foi muito proveitoso.Eu só não entendi porque no Brasil (e na América Latina), o populismo implicaria uma desvinculação entre classes e grupos sociais. Pelo contrário, enxergo uma diferença de camada social entre os que apóiam e os que rejeitam o populismo...