Somos apáticos?

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Quantas vezes você já pensou em apatia política? As pessoas não têm interesse, provavelmente é o que veio instantaneamente a sua mente. Todos sofrem de uma preguiça incrível, a mesma que termina por impedir o engajamento em qualquer temática além do seu próprio bem-estar. Será isso mesmo? Ou será que são impostos obstáculos que se sobressaem ao fato de você se importar e ter uma opinião?

David Meslin faz uma distinção entre apatia e exclusão intencional. Você já leu um edital público? Alguém teria interesse em participar de uma atividade comunitária que utilizasse tal modelo de convocatória? Parece ser óbvia a sua escolha. Pense em como as principais marcas de produtos de consumo tentam ganhar sua atenção. Existe algum movimento similar dos setores públicos? Muito pelo contrário, a imagem que muitas pessoas têm é que os políticos são corruptos, sem-vergonhas, aproveitadores, entre tantas outras alcunhas. O setor público, por outro lado, é associado à lentidão, falta de criatividade e burocracia.

No Equador se discute atualmente uma consulta popular com a intenção que o povo ofereça seu veredicto sobre as reformas do poder judiciário propostas por Rafael Correa. O presidente já deixou bem claro que a idéia é de fato colocar as mãos na justiça, à medida que ninguém poderia estar satisfeito com o atual desempenho das cortes pelo país. São 10 perguntas, já propriamente revisadas pela Corte Constitucional do país, que estarão disponíveis aos cidadãos. Tais perguntas fazem referência à documentos adicionais e à constituição federal, como se não bastasse a já árdua missão de analisar e decidir sobre temas como a Lei de Comunicação, os jogos de azar, as touradas, o Código Penal, a Composição do Conselho de Justiça; isso para centrar nossa atenção somente em alguns exemplos.

Diante da complexidade da discussão, muitos preferem pensar em como ficaria o país sem touradas. Esse tema sim tem apelo e é acessível para muitas pessoas. Enquanto isso, a reforma do Judiciário fica em segundo plano. Afinal, o governo conseguiu deixar as perguntas da consulta, as fontes de pesquisa e os temas tão complicados que certamente quase ninguém conseguirá formar uma opinião em cada uma das dez questões. Por tal razão, em grande medida o “votar sim” ou o “votar não” será pautado na aprovação (ou desaprovação) do governo e da conduta do presidente. Isso é prato-cheio para ainda mais desinformação. Os partidários de Correa defendem a consulta como uma continuação da Revolução Cidadã, ao passo que os opositores a entendem como mais um passo rumo ao autoritarismo.

Tal como Meslin, não julgo as pessoas desinteressadas pela consulta como apáticas. A intenção parece ser levar a discussão para longe dos verdadeiros pontos importantes, delimitando o debate a uma mera aprovação política do atual governo. Será que ninguém se importa sobre o controle do conteúdo vinculado por meios de comunicação e a estrutura do poder judiciário? Ou simplesmente ninguém (ou quase ninguém) é capaz de entender a profundidade de tais discussões? Sim, as pessoas se importam. Contudo, as entidades políticas fazem questão de tornar os debates ininteligíveis, como se fosse algo circunscrito a uma parte da elite intelectual. Para que todos possam participar, os mesmos atores trazem questões interessantes à ótica popular (os jogos de azar e as touradas). No final, eles têm a esperança que poucos percebam que são as outras perguntas que realmente escondem o “ouro”. Povo, não precisa se preocupar em ler e entender. Se você aprova o Correa, vote sim. Basicamente vai ser assim, independente da importância das questões em pauta.


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