Soluções econômicas mirabolantes, repercussões polítcas mirabolantes

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Não é novidade para ninguém que vivemos em tempos financeiros nebulosos. A crise econômica que eclodiu em setembro de 2008 ainda deixa sinais por todo o mundo e, ao seu combate, inúmeras iniciativas estão sendo tomadas. Recentemente, ocorreu na Basileia, Suíça, uma reunião entre os presidentes de Bancos Centrais e representantes do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) para adotarem novas regras para os bancos e evitar novas crises. Mas não é para as repercussões desse evento que quero atentar. Chamo atenção para outro ponto: a Argentina não enviou nenhum presidente do Banco do Central (BC). Ele foi demitido pela presidente Cristina Kirchner.

Ao menos, a demissão do presidente do Banco Central argentino, Martín Redrado, foi a solução unilateral encontrada pela presidente para conter a crise econômica em seu país. E de um problema econômico passou-se para um grave problema político. Constitucionalmente, a demissão do presidente do BC – ou de qualquer outro dirigente do BC – depende do voto de uma comissão do Senado, o que não ocorreu. Kirchner declarou que Redrado agiu de má conduta ao negar o pedido de US$ 6,5 bilhões das reservas da instituição para pagar parte da dívida pública da Argentina que vence este ano, totalizada em US$ 13 bilhões.

Não é a primeira derrota significativa de Kirchner. No ano passado, quando tentou taxar as exportações de produtos agrícolas, a decisão dependia de um voto do vice-presidente, Julio Cobos, que negou tal iniciativa, submetendo ação ao encargo da história. E essa história não nada lá muito bem para a presidente argentina, que se perde no meio de tantas retóricas. Agora ela acredita que é vítima de uma conspiração midiática, política e judiciária para derrubar o seu governo.

É importante que se note: enquanto foi se construindo um mausoléu para economia Argentina, o patrimônio do “casal presidencial” – como Nestor e Cristina Kirchner são conhecidos no país, elevou-se de US$ 1,9 milhão para US$ 12,1 milhões, entre 2003 e 2008. Desde a criação do Estado Argentino, no século XIX, muito se acreditou num futuro promissor e próspero, bem com se idealizou uma Grande Argentina. Essa dupla que atualmente está no governo entra no rol das figuras que contribuíram para o naufrágio econômico da nação, agravado durante a década de 1990.

A Venezuela não ficou para trás no tocante à adoção de medidas mirabolantes. Hugo Chávez decidiu estabelecer um câmbio duplo e desvalorizar a moeda venezuelana para combater a inflação. Até aqui, tudo bem, é uma medida de práxis, embora bastante questionada. Só que o presidente venezuelano agora definitivamente inovou: militarizou o combate da inflação. A Guarda Nacional está nas ruas, patrulhando os estabelecimentos comerciais para evitar a elevação dos preços. Quem subir os preços, terá os produtos confiscados. Isto sim é que um exemplo claro de intervenção estatal na economia e um desvirtuamento da função dos militares.

Se essas soluções serão exitosas ou não, deixemos sob o julgamento da história, como Cobos o fez. O que cabe ser destacado e conduz a uma instigante reflexão é o quanto decisões como essas podem, paradoxalmente, reforçar o Estado democrático de direito e de fato – condição alcançada em toda a América Latina por meio de um sinuoso processo – comprometendo a ordem democrática vigente, abandonando a simbiose Estado/democracia. Das apreensões e incertezas econômicas está se passando, igualmente, para as apreensões e incertezas políticas. Conclusão: soluções econômicas mirabolantes, repercussões políticas mirabolantes.


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