Socorram o Marrocos

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Parece que o tema da tal “primavera árabe” não morre tão cedo. Em 2011 já se falou de tudo sobre isso, de espírito democrático a questão de intervenções. Mas, qual o saldo até o momento? Temos dois governantes depostos, mas com seu país atualmente imerso em caos e incerteza (Tunísia e Egito), uma invasão cujo único resultado prático foi ressuscitar velhas maneiras de intervenção com uma roupa nova e causar a morte de mais civis, sem resultado prático visível (Líbia), e os casos em que o governante não larga o osso mas solta o porrete contra os insatisfeitos (Iêmen, Síria, etc…). Curiosamente, temos um caso em que finalmente podemos ter um resultado “satisfatório” em termos de democracia, que é o Marrocos.

O país do norte africano não escapou das ondas de protestos, mas a repressão foi bem mais, por assim dizer, light – mesmo por que a família real está consolidada no poder há mais de 300 anos, não são aventureiros como muitos de seus vizinhos, e a economia não anda mal das pernas. Quando tentou reprimir com mais violência, causou a morte de um opositor pacífico e gerou ainda mais furor; com isso, o governo diminuiu a repressão e parece que o rei Mohammed VI se deu conta que reprimir com violência é improdutivo. Continuam a pipocar denúncias e protestos, e de maneira inédita na região, foram apresentadas propostas de reforma para transformar o Marrocos em uma monarquia constitucional. É o bom e velho ditado dos “vão-se os anéis, ficam os dedos”: o rei abre mão de parte do seu poder para se manter, enquanto se implementam algumas reformas desejadas pelos revoltosos.

Se tudo correr bem, será um exemplo aos demais países da região, uma reforma pacífica e que não deixa um vazio político e problemático como no Egito ou Tunísia, mantendo um aparato institucional ao mesmo tempo em que se atendem as reivindicações (ou, ao menos, parte delas…). O grande mistério é o que esperar do rei Mohammed VI com relação às manifestações – tanto estas quanto a repressão foram crescentes nos últimos meses. E por mais que esteja evitando medidas mais drásticas, caso se sinta muito ameaçado, o governo pode recorrer ao exemplo de seus vizinhos, indo pelo caminho “fácil” de desbancar pra violência pesada contra os manifestantes.

Ignorando o palíndromo do título, o Marrocos parece ser um excelente exemplo de que a melhor via para a democracia é mesmo pela reforma interna. O jeito é torcer pelo melhor.


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