Sobre patos e tanques

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Patos amarelos no lugar de tanques. Essa foi uma das formas que internautas encontraram para, driblando a censura, relembrar uma data que marcou tristemente a história chinesa em termos de direitos humanos. Ontem completaram-se 24 anos desde o massacre ocorrido na Praça da Paz Celestial (Tiananmen) e esta foi uma das maneiras de disseminar o assunto nas redes sociais na China.

O número de vítimas do massacre, na verdade, nunca foi confirmado (sendo estimado em cerca de 4 mil mortos e 60 mil feridos por certas fontes) e qualquer recordação pública deste acontecimento é ainda hoje refreada pelo governo, assunto tabu mesmo mais de duas décadas depois. Tanques de guerra (!) – hoje ironizados pelos patos amarelos, inspirados na obra de um artista holandês que fez sucesso em Hong Kong recentemente – foram enviados pelo Partido Comunista para reprimir protestos inéditos por liberdade e democracia.

Protestos estes pacíficos que, iniciados por universitários, reivindicavam mudanças, maior transparência e liberdade a nível nacional. Sua repressão e as informações sempre nebulosas por parte do governo neste sentido demonstram que o gigante chinês ainda encontra no respeito aos direitos humanos sua maior fraqueza.

No último domingo, faleceu o prefeito de Pequim à época, o qual foi um dos principais responsáveis pela brutalidade na repressão aos protestos, condenado à prisão por crimes de corrupção. Mudam-se os indivíduos, mas não a influência do Partido Comunista no país. A influência que ontem foi responsável por tantas mortes após reivindicações pacíficas hoje tenta de todas as formas invisibilizar as memórias deste acontecimento trágico, evitando o reconhecimento de sua importância.

A verdade é que os esforços governamentais parecem levar a um efeito contrário, indesejado pelo governo, de motivar os estudantes de hoje a buscarem novas formas de manifestação, tornando o assunto, de alguma forma, cada vez mais visível para as sociedades chinesa e internacional. Grandes patos amarelos que representam a ironia de um regime que ainda comanda uma gigantesca potência sem o devido (e necessário) respeito aos direitos humanos de sua população. 


Categorias: Ásia e Oceania, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Mídia


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