Sobre nossas cabeças

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Nesta semana, causou um certo rebuliço na comunidade cientifica a notícia do retorno de uma missão espacial secreta dos EUA. A espaçonave retornável X-37B, um veículo de teste orbital não tripulado, esteve voando (na verdade, caindo – uma órbita planetária é basicamente uma queda sem fim em direção à curvatura do planeta) em torno da Terra, pasmem, desde 2012. Após 22 meses, seu retorno levanta uma série de questões sobre a sua misteriosa finalidade.

Há satélites que passam muito mais tempo, é claro. Mas eles são feitos para ficarem na sua órbita até o fim de sua vida útil (ou trombarem com qualquer coisa) e virarem lixo espacial. Um veículo que vai para o espaço, fica mais de um ano em órbita e volta há de ter alguma particularidade. Seria apenas uma missão de teste da viabilidade do novo veículo, mas por que não ser feito pela agência civil, a NASA? Aí que começa a especulação, que vai de espionagem a possibilidades mais estarrecedoras, como uma plataforma de armas de alcance inigualável.

Devemos lembrar que existe uma convenção internacional para o uso do espaço. De 1967, o Tratado do Espaço Exterior surgiu no auge da corrida espacial entre EUA e URSS, e serviu principalmente para definir de quem era a culpa quando uma nave ou satélite artificial caísse na Terra, e seu ponto mais famoso, o de proibir o emprego de armas nucleares e de testes dos mesmos além da nossa atmosfera. Mas não diz nada sobre armas convencionais – tanto que nos anos 80 os EUA tiveram seu sonho de projeto Guerra nas Estrelas, com lasers interceptadores de mísseis e tudo mais.

A implicação de um projeto dessa natureza é enorme em termos de estratégia – SE for de aplicação puramente militar, claro. A utilidade dos satélites espiões já é reconhecida, mas uma plataforma móvel, capaz de com ajustes de rota se posicionar sobre quase qualquer lugar do globo, fora do alcance de qualquer sistema de defesa… seria uma nova etapa na capacidade de dissuasão. Na verdade, um salto sem precedentes desde a implementação da tecnologia nuclear. Mesmo pensando em termos mais realistas, como um veículo sub-orbital, capaz de realizar suas missões viajando além da atmosfera, já seria algo preocupante para quem não dispusesse dessa tecnologia.

Porém, há pelo menos duas considerações importantes. A primeira é que, independentemente do uso, provavelmente apenas os EUA vão dispor desse luxo por um longo tempo. Programas espaciais são caros, e por mais dinheiro e mentes que o país tenha dedicados a isso (veja China ou Índia) demora muito para alcançar um grau de excelência nessa área. Ou seja, mesmo que seja uma inovação assombrosa, se apenas os EUA vão dispor disso, literalmente nada vai mudar em termos geoestratégicos. Simples assim. A segunda, um pouco mais sensata, seria de que não se trata de um projeto puramente militar. Muitas das inovações da vida comum, do forno micro-ondas à meia de lycra vieram de novidades militares. A exploração espacial moderna parece rumar para o caminho das empresas privadas, mas a pesquisa estatal não deixa de ser uma opção. Devemos lembrar que boa parte dos astronautas são militares, então não é nada inédito que possa estar havendo uma cooperação entre as agências.

Não sei se no futuro haverá guerras espetaculares com bombardeios orbitais fazendo chover destruição, mas a navegação espacial é uma realidade e, acima de tudo, uma necessidade para o ser humano. Qualquer avanço nessa área deve ser comemorado, e a capacidade de colocar um veículo em órbita e recuperá-lo inteiro mais de um ano depois é algo mais que notável.


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