Sobre muros e pontes

Por

Berlim

“A humanidade precisa de pontes, não de muros”. Com base nas sábias palavras do Papa Francisco proferidas ontem, a reflexão sobre os 25 anos que se celebram desde a queda do muro de Berlim se reveste dos traços históricos para pensar o futuro.

Construído em 1961, o arame farpado se converteu em concreto e deu origem a uma dura segmentação de Berlim no pós-Segunda Guerra Mundial, controlada por Estados Unidos e aliados em contraposição à União Soviética. Com as constantes fugas do lado oriental ao lado ocidental, a divisão foi imposta de modo a criar um cerco e impedir o acesso, interna e externamente, ao lado ocidental.

Há 25 anos, caía por terra (literalmente) o principal marco ideológico da história recente no período da Guerra Fria: o Muro de Berlim, que dividiu durante décadas a capital alemã em duas partes, sendo o lado oriental comunista e o lado ocidental capitalista.

Nas celebrações de ontem no centro de Berlim, mais de dois milhões de pessoas participaram da festa pela queda do muro, ocorrida no dia 9 de novembro de 1989. Apesar da inexistência, a partir de então, de um muro físico, apenas em 3 de outubro de 1990 caíram, de fato, os muros políticos, com a reunificação do país na República Federal da Alemanha.

Foram lançados ontem ao ar aproximados 8 mil balões (foto), os quais estavam localizados na antiga faixa do muro, posicionados na mesma altura do mesmo (3,6 metros). A dissolução dessa barreira imaginária, em ato simbólico de grande representatividade, nos leva a refletir sobre a história da Alemanha (e do mundo) durante o século XX, marcado por grandes avanços tecnológicos, mas também sangrentos conflitos. A “era dos extremos” de Hobsbawn viu as sociedades, por diversas vezes, se dividirem e se reunificarem, lutarem e se reconciliarem…

Se de fato entendermos que o mundo não precisa de muros, mas sim de pontes – ou seja, de vias pelas quais as partes se encontrem para buscar o diálogo – veremos que vários dos embates atuais, não mais revestidos com o pano de fundo da Guerra Fria (pelo menos em teoria), poderiam vislumbrar soluções.

A celebração da importância da queda do Muro de Berlim não deve, portanto, se restringir ao povo alemão, mas sim inspirar o mundo inteiro que, com seus muros (visíveis ou não), ainda é palco de tantos conflitos cuja resolução depende, em grande medida, de vontade política.


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