Sobre Israel e a cultura militar

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O tema de Israel e seu interminável envolvimento com operações militares – sejam no âmbito interno ou externo – está geralmente relacionado com as questões entrelaçadas do combate ao terror e a “sobrevivência em si do Estado”, como algo enraizado na psique israelense. John Keegan, na obra “Uma História da Guerra”, conclui, grosso modo, que as guerras, mais do que sua significação política, carregam um sentido cultural próprio a cada povo beligerante. Esse tipo de perspectiva pode ser contestado de diversos modos, mas encontra respaldo quando pensamos no caso de Israel.

Esta semana, tive contato com a questão de diferentes modos. O primeiro, voltado para um futuro não muito distante, configurado em um tipo de cenário prospectivo proposto por um think tank norte-americano, acerca de uma possível invasão israelense ao Irã, com a finalidade de inutilizar o programa nuclear iraniano, arrastando os relutantes EUA para o conflito e acarretando agressões de Síria e Irã contra Israel (mais aqui). O prognóstico é terrível, com a paralisação da economia israelense e novas altas no preço do petróleo.

O segundo, por outro lado, volta-se para o passado, com a tradição cristã da Semana Santa, a qual evoca em determinado momento a história do povo da primitiva aliança, e em muitos momentos se relembra a tradição guerreira dos hebreus. Ora, os relatos históricos escritos judaicos existentes, seja na Bíblia cristã ou no Torá, enfatizam com persistência os percalços e combates enfrentados pelos hebreus ao remontar à sua busca pela Terra Prometida. A história antiga de Israel, herdeiro do povo hebreu através do sionismo, é em essência uma série de conquistas militares contra povos cananeus e filisteus, seguida por árdua e sofrida resistência contra invasores imperiais, de babilônios a romanos, pela continuidade da pequena região, religiosa e cultural. Ora, Israel ainda hoje combateria estes “invasores” – no caso, os árabes, não como invasores em si, mas como ameaças à sobrevivência de Israel.

Na obra supracitada, Keegan infere que um fator primordial para a expansão árabe que os levou a se instalar em um amplo território, incluindo o atual Israel, fora justamente a religião, que estimula o guerreiro do Islã a combater com toda sua força os infiéis, com a promessa de uma graça divina, desinibindo-o de aspectos mais ritualizados de combate e do amor-próprio. Poderíamos dizer que é o mesmo que ocorre com Israel: o passado hebreu e a noção de povo escolhido do judaísmo, com um apoio divino a suas pretensões, fazem com que o combatente nunca esmoreça em seu confronto com as forças que visam destruir sua pátria e estilo de vida – sejam terroristas radicais, sejam Estados com pretensões nucleares que não se sentiriam incomodados em fazer mísseis voarem como marimbondos pelos céus do Oriente Médio.

Vê-se que são duas forças de igual motivação que se encontram opostas no conflito de Israel com seus vizinhos árabes. O exercício de pensamento do Saban Center é apenas uma ferramenta de prospecção e não deve ser entendida como uma inevitabilidade, mas como um possível rumo de ações. E muito possível, tendo em vista esse passado cultural de Israel. Pode não ser pelos meios descritos ou através do desenrolar dos fatos como imaginados no cenário, mas Israel, nesse contexto, não pode tolerar um Irã nuclearizado, e uma invasão iminente é algo muito próximo da realidade, e plenamente justificável sob a ótica israelense.


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