Sobre conversas telefônicas e mudanças

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Vivemos momentos históricos para as relações internacionais contemporâneas. Vários acontecimentos recentes têm impressionado porque, apesar de constituírem polêmicas antigas, poucos imaginavam o rumo que estes temas tomaram nos últimos dias.

Destacadamente, assunto já tratado aqui no blog, vimos a presidenta brasileira questionar a hegemonia estadunidense diante das revelações de espionagem em níveis altíssimos e “adiar” uma visita de Estado ao presidente Obama, mesmo após contato telefônico deste para tentar esclarecer a situação.

um outro contato telefônico de Obama trouxe esperança de renovação em relações bilaterais tensas há décadas. Trata-se da relação Estados Unidos-Irã. Com a chegada do novo presidente iraniano Hassan Rouhani, já comentávamos no blog a impressão de que se visualizava uma porta inédita de diálogo entre Teerã e a Casa Branca a respeito do sensível debate nuclear.

Durante a Assembleia Geral da ONU em Nova York, percebeu-se já um tom mais amigável entre os líderes, apesar de as posições manterem-se ainda bem marcadas, e o telefonema de 15 minutos ocorrido na última sexta-feira fechou a semana trazendo um novo ar às relações entre os dois países.

Depois de 34 anos, os líderes de Estados Unidos e Irã conversaram diretamente. Momento histórico. É claro que não se pode esperar que três décadas de tensão se resolvam em três dias, mas tampouco pode ser menosprezada a importância desta conversa.

Subordinado ao líder supremo do regime islâmico, o aiatolá Ali Khamenei, Rouhani já se destaca na chefia do governo pela autonomia e disposição em quebrar o estigma de líder inacessível ao diálogo com o Ocidente.

Este posicionamento, contudo, ainda possui receptividade diversa no próprio Irã. Aclamado pelos jovens e por aqueles que acreditam na via do diálogo, Rouhani é ao mesmo tempo hostilizado por aqueles que se recusam em aceitar a “submissão” ao Ocidente, representado notadamente pelo gigante norte-americano.

Ousado, Rouhani já se configura como um líder que merece destaque. A possibilidade de uma nova era de diálogo entre Estados Unidos e Irã reacende uma esperança há muito perdida. Apenas com os resultados efetivos das negociações é que poderemos avaliar o real impacto desta conversa telefônica, mas que ela por si só já representa um avanço, isso não se pode negar. 


Categorias: Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


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