Sobre cartas e escudos…

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Desde 2001, o escudo antimísseis norte-americano tem polemizado especialistas e governantes mundo afora. Começou como projeto lunático da plataforma de governo Bush, reeditando a Guerra nas Estrelas do presidente Reagan, para tornar-se a opção mais sensata para defender os EUA contra um ataque de mísseis balísticos intercontinentais provenientes de Irã e Coréia do Norte, principalmente. O projeto, amparado pela OTAN e acordado com a Polônia e República Tcheca, que hospedariam radares e interceptores, tomou outro rumo depois da eleição de Obama: os EUA estão em cima do muro.

Na quarta-feira passada, o presidente americano Barack Obama confirmou ter enviado uma carta à Moscou, na qual afirma que a instalação do escudo antimísseis na Polônia e na República Tcheca seria desnecessária caso a Rússia ajudasse a impedir que o Irã prossiga com seu programa nuclear. O Kremlin, no entanto, nega que seja este o conteúdo da carta.

O governo Obama vem até agora mudando muitas das pedras fundamentais do antecessor Bush, como no caso da assinatura de protocolos ambientais, leis trabalhistas e o fechamento de Guantánamo. Ocorre que no episódio do escudo, a posição do governo ainda é bastante nebulosa.

Durante a campanha, Obama mostrou-se cético quanto ao acordo assinado em agosto passado entre EUA e Polônia, preocupando autoridades polonesas no que se refere à efetividade do acordo, negociado por um ano e meio e fonte de muita barganha para o país europeu. A incerteza sobre o futuro do projeto americano gerou euforia do lado russo, que abriu portas para o diálogo ao suspender o desdobramento de foguetes táticos no Kaliningrado “já que o novo Governo americano não reforça os planos de colocar elementos de seu escudo antimísseis na Polônia e na República Tcheca”.

Chegou-se a especular que Obama faria o escudo após verificar a relação custo-benefício. Nem bem o presidente americano fez seu primeiro discurso e o seu colega polonês já deu declarações visivelmente desesperadas afirmando que os planos seriam mantidos. Os EUA deram sinais de disposição para retomar diálogo com o Irã; contudo, poloneses exigem uma posição definida sobre as instalações do escudo. A OTAN aceitou retomar relações com a Rússia, e é nesse contexto que surge a declaração do presidente Obama de que sem um Irã nuclear, a defesa antimíssil na Europa é desnecessária.

Ocorre que os EUA encontram-se numa sinuca de bico. O Irã muito provavelmente já tem tecnologia (provinda da Rússia) nuclear bélica: falta o míssil lançador. Agora que convenceram a Europa da necessidade do sistema (e mais que isso, depois que prometeram defesa aos aliados do velho continente), há uma pressão favorável à continuidade de políticas do governo Bush para o Obama, de forma a concretizar o acordo. Por outro lado, se os EUA levam a cabo as intenções da administração anterior, serão contraditórios em vários pontos como a reaproximação com o mundo árabe e a delicada reconciliação entre seu país com a Rússia.

Creio que o Obama vai cozinhar o assunto em banho-maria por um bom tempo, enquanto os maiores problemas de sua administração forem de ordem econômica. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos…


Categorias: Política e Política Externa


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