Sincronizando Babel…

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Apesar de quase dois meses da vigência no Brasil da reforma ortográfica da língua portuguesa, que tenta unificar a escrita dos 8 países lusófonos desde 1990, o assunto ainda apresenta pontos que dão pano pra manga. Sumiram o trema, alguns acentos, hífens, e restou um número hiperbólico de livros desatualizados nas estantes. Além dos altos custos da reforma (estima-se que revisar um livro no Brasil custe cerca de 5 mil reais), o acordo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) prevê uma série de formas facultativas (prêmio/prémio, acadêmico/acadêmico; aritmética/arimética, súdito/súbdito). Ou seja, um livro editado do Brasil não atravessará o Atlântico, e vice-versa.


Portugal, extremamente relutante em aceitar a reforma por acreditar que ela serve aos propósitos geopolíticos brasileiros, finalmente ratificou o acordo em julho de 2008. A pressão interna contrária à reforma, contudo, ainda é muito intensa e conta com o apoio maciço dos editores lusitanos. Apesar de extremamente comemorada do lado de cá do oceano, a aquiescência portuguesa ainda levanta dúvidas: a lei que regulamenta a transição da antiga ortografia para a acordada ainda não aconteceu. Sabe-se também que um livro didático na terra de Camões deve durar ao menos 6 anos. Isso significa que a lei, se promulgada esse ano, deve entrar em vigor apenas em 2015.

Feita a trancos e barrancos, a reforma é custosa e pouco efetiva. Custosa pela necessidade da reedição de várias obras, treinamento de professores e livros subitamente obsoletos. Pouco efetiva porque, além da dupla escrita de várias palavras, a unidade ortográfica não garante o entendimento entre lusófonos por não englobar alterações sintáticas e léxicas. O argumento de tornar o português numa língua-potência, transformando-o, por exemplo, em idioma de trabalho da ONU é igualmente sofrível. O chinês tem diversos dialetos e, no entanto, só se fala na importância de dominar o mandarim em nome da ascensão econômico/política pela qual o país passa. E quanto às variantes do inglês então? Por fim, Portugal vai mesmo efetivar a mudança? Os demais países africanos e Timor só devem concretizá-la caso a antiga metrópole o faça. Resta-nos torcer para que Portugal prossiga com as alterações, já que a reforma é uma realidade para os falantes brasileiros.

A propósito, fico contente que possamos usar a ortografia antiga até 2012…


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