Série Especial: 100 anos depois: Visões da Guerra

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“Filas de rostos pálidos murmurando, máscaras de medo,

Eles deixam as trincheiras, subindo pela borda,

Enquanto o tempo bate vazio e apressado nos pulsos,

E a esperança, de olhos furtivos e punhos cerrados,

Naufraga na lama. Ó Jesus, fazei com que isso acabe!”

(Siegfried Sassoon citado por Eric Hobsbawm em “Era dos Extremos”)

Soldado alemão ferido em maio de 1915

Soldado alemão ferido em maio de 1915

Introdução

Quando começou o século XX? Para muitos, a resposta parece óbvia. Mas, para as relações internacionais, pode-se dizer que esse marco temporal remete-se ao ano de 1914. Afinal, o que tal data tem de tão importante para autores famosos das mais variadas linhas de pensamento como Eric Hobsbawm em seu livro “Era dos Extremos – O breve século XX (1914-1991)” ou Jeffry Frieden em “Capitalismo Global – História econômica e política do século XX” pontuarem 1914 como o início do último século ou fase do “Tudo o que é sólido desmancha no ar…”*? A resposta, num primeiro momento, é bem simples: 1914 remonta ao início do primeiro grande conflito de proporções globais, a Primeira Guerra Mundial.

No dia 28 de julho de 1914, há exatos cem anos, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia em virtude de instabilidades políticas cujo estopim foi o conhecido assassinato do Arquiduque austríaco Francisco Ferdinando em junho do mesmo ano. A partir de então, as grandes potências da época organizaram-se em duas alianças: a Tríplice Entente composta por Reino Unido, França e Império Russo e a Tríplice Aliança formada pelo Império Alemão, Áustria-Hungria e Itália.

Também conhecida como “Guerra das Trincheiras”, a Primeira Guerra Mundial perdurou até 11 de novembro de 1918, quando fora assinado o Armistício de Compiègne entre a Alemanha e a Tríplice Entente, esta já não mais contanto com a participação russa, mas possuindo o adendo dos estadunidenses, os quais entraram no conflito em 1917. Durante mais de quatro anos o mundo conheceu o que viria a ser “A Era da Guerra Total”**, posteriormente também denominado de “Século das Revoluções”***.

Salão do Palácio de Versalhes palco que assinalou o fim da Primeira Guerra Mundial em 1919

Salão do Palácio de Versalhes: palco que assinalou o fim da Primeira Guerra Mundial em 1919

Seu marco temporal final, conforme mencionado acima, perdurou até 1918. Todavia, mesmo passados cem anos, vemos nas relações internacionais contemporâneas uma ordem que se remete e resulta daquele grande conflito. A assinatura do armistício trouxe um ponto e vírgula, mas não um ponto final aos conflitos entre as grandes potências. Exemplo maior dessa constatação veio logo em seguida com as conhecidas Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e a Guerra Fria.

Mesmo conhecendo o que havia de pior à época, a Primeira Guerra Mundial trouxe inúmeras mudanças ao cenário internacional nos seus mais variados âmbitos, os quais incidiram na política, economia, defesa, estratégia, sociologia, dentre outros assuntos vitais para as relações internacionais. Deste modo, procurando compreender o conflito, bem como entender o que a guerra trouxe de novo ao século XXI, a Página Internacional inicia hoje uma série especial intitulada “100 anos depois: Visões da Guerra”.

Ao longo das próximas semanas, traremos alguns textos com o intuito de trabalhar com os aspectos da Primeira Guerra Mundial citados no parágrafo acima. Dentre os mesmos, procuraremos lançar observações aos seguintes questionamentos:

1) Quais foram os impactos econômicos e políticos do conflito na Europa, no Brasil e nos Estados Unidos?

2) Quais foram as nuances estratégica-militares e como elas influenciaram o pensamento estratégico no decorrer do século XX?

3) Qual foi o papel do Brasil no conflito? Como se portava o ambiente nacional naquele período e em que se sustentava nossa Política Externa?

4) Quais foram os reflexos da guerra na memória da Europa? No pós-guerra, que faceta os países tomaram após as reconciliações?

5) Qual o legado do conflito para a Segunda Guerra e a Guerra Fria, bem como para o surgimento das Relações Internacionais enquanto campo de estudos/conhecimento?

6) Quais foram os impactos sociais e culturais da guerra? Qual era o ponto de vista das populações que vivenciaram esse momento histórico?

Assim, a Página Internacional não poderia deixar em branco o centenário de um evento histórico que mudou o decurso político e proveu os meios de sustentação para o surgimento das Relações Internacionais, propriamente ditas. Nosso objetivo será incitar o debate e observar como aproximadamente quatro anos (1914-1918) tiveram no século XX e ainda possuem, em pleno século XXI, influência direta nos ordenamentos internacionais. Os anos que despedaçaram a Europa foram os mesmos que criaram um novo meio de se fazer e viver a política internacional.

Boa leitura!

* O excerto faz jus ao título do sexto capítulo do livro de Frieden, no qual o autor inicia sua análise ao que denomina “Tudo se desmorona, 1914-1939”.

** O excerto faz jus ao título do primeiro capítulo do livro de Hobsbawm, no qual o autor inicia sua análise ao que denomina “A Era da Catástrofe”.

*** O excerto faz jus a uma frase do documentário “Encontro com Milton Santos: O mundo global visto do lado de cá” do cineasta Silvio Tendler.


Categorias: Post Especial, Primeira Guerra Mundial


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