Será que eles aprenderam?

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Boa pergunta! Mas eles… eles quem? As grandes potências, vivendo em tempos de impotência econômica e incompetência política, ainda querem dizer que reinam absolutas no mundo, quando se trata de manter a paz e segurança internacionais. França, Reino Unido, Estados Unidos e Alemanha, valendo-se da velha estratégia da OTAN do pós-Segunda Guerra, pretendem recorrer à força para estabilizar a situação na Síria.

Ora, ressalta-se, certamente ninguém deixaria de reprovar a violenta repressão do governo sírio contra as manifestações civis. Porém, é preciso refletir se o uso da força realmente é a maneira mais apropriada para conter a repressão e trazer a estabilidade novamente para o país. A princípio, prevalece uma zona obscura na resolução contrária à Síria que está tramitando no Conselho de Segurança: pede-se o fim da violência, a libertação de presos e que o próprio povo sejam os agentes das reformas, notadamente políticas, até então prometidas, mas negligenciadas pelo governo. Não está claro se serão adotadas sanções econômicas, diplomáticas, e nem fecha qualquer possibilidade para uma eventual intervenção militar.

Aqui reside o problema. O Brasil, bem como os países dos BRICs, deve votar contrário à resolução, no esteio dos desdobramentos observados na Líbia. Ao contrário do que se imaginava, a resolução 1973 não se limitou ao estabelecimento de uma zona de exclusão aérea. Serviu também para alimentar os escondidos desejos iniciais da queda de Kadafi, agora bem expressos, e levou a morte de civis. Tudo bem que aí vêm os franceses e dizem que “cada caso é um caso”, só que se esquecem de casos recorrentes em que a pretensa intervenção salvadora criou uma insuperável desestabilização: Afeganistão e Iraque. É claro que pode ter uma escola a mais aqui, um hospital acolá, e inclusive o fim de governos perversos, mas a violência se tornou endêmica, corroendo as entranhas de toda e qualquer ordem jurídico-legal que se tenta estabelecer.

Em caso de intervenção, por que seria diferente na Síria? Só por que é considerado o regime mais ‘ocidentalizado’ do Oriente Médio? Primeiro, existe um “paradoxo da proteção de cidadãos” recorrente: ao mesmo tempo em que se busca protegê-los, acaba os matando. Por mais que os exércitos venham se preparando para atuar em ambiente urbano, com estratégias de contra insurgência, é cada vez mais difícil distinguir o civil do inimigo. Segundo, supondo-se que caia o presidente Bashar al Assad, seria possível manter a ordem institucional, com um governo fantoche ou sem governo algum? O primeiro deve despertar o repúdio nacional, o segundo é impossível. A Síria, com seus alauítas, sunitas, xiitas, etc. e tal, não é uma Bélgica, capaz de superar as rivalidades entre franceses e flamengos e manter a ordem sem governo por quase um ano. Terceiro, os sírios realmente desejariam uma intervenção estrangeira?

E aí, intervir ou não intervir? As ditas grandes potências devem pagar um preço alto pela estabilidade da Síria, se recorrem ao uso da força. Vão colecionar mais uma guerra desnecessária e acentuar o atual desgaste do status quo que enfrentam. As potencialidades do passado não são mais inteiramente aplicáveis ao presente. Melhor não arriscar!


Categorias: Defesa, Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Segurança


4 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Obrigado, Alcir.Vou tentar tratar de ambos os comentários simultaneamente, porque tocam num aspecto comum: quando devem as grandes potências intervir ou não.Pois é, Jéssica, no caso da Árabia Saudita, violando sistematicamente os direitos humanos, ninguém toca no assuntos, enquanto esbanjam ofensas contra a China. A diferença é que esta ameaça a hegemonia das grandes potências e aquela as sustenta. Principalmente, os Estados Unidos. Para o governo norte-americano, o país saudita ocupa uma posição geoestratégica no Oriente Médio, sem contar que lhe proporciona, economicamente, um casamente perfeito: o maior consumidor de petróleo e o maior produtor de petróleo (dissemos isso num post anterior).Sendo assim, parece pouco provável um intervenção. Mas e na Síria, como perguntado pelo Alcir? Por que não intervir? Antes de defender o meu ponto, convém uma observação: de modo algum, podemos pressupor que o poder militar não é mais importante. Muito pelo contrário, acho ainda que os países que detêm maior poderio militar podem prestar contribuições mais DECISIVAS à segurança e paz internacionais. Mas, por decisivas, não se deve entender EXCLUSIVAS. Simplificando, não basta apenas o recurso às armas.Na Síria, em particular, até agora só houve condenações. Nenhuma grande potência em particular, chegou para a sua grande potência amiguinha e disse: "Ei, vamos tentar mediar a situação na Síria?". Menos ainda, juntaram-se e pensaram nisso. Se servir como comparação, ilustraria com a mediação brasileiro-turca na questão nuclear iraniana. É claro que na Síria o problema é trazer à mesa as partes conflitantes: o governo e o povo. Quem é o povo? Não há líder, grupos, facções, etc. Pelo menos, ainda não está claro isso. Ainda assim, é algo importante a ser pensado.Em primeiro lugar, deve-se buscar remediar a situação por meio do diálogo. Acho que o mais adequado é as grandes potências organizarem uma coalizão de países, no seio da ONU, para tentar mediar a situação por meio da palavra. Se a palavra falhar, aí abre-se a possibilidade para o recurso à força. Em termos simples, para não entra no mérito da 'estratégia da dissuasão', a fórmula seria: falar antes de atirar, ao invés de atirar e ficar falando consigo mesmo. Além de surgirem especulações, bobagens e distorções da realidade, o tiro deve sair pela culatra.Sim, a situação na Síria está bem feia. Nestas horas, vem a lembrança do genocídio em Ruanda, facilitada pela inércia das grandes potências. Mas, arrisco-me a dizer que o pior não é intervir, é o porvir! O problema é estabilizar o país. Até agora, não se há exemplos exitosos de países estabilizados após uma incursão contrária à vontade das partes conflitantes. Teríamos aí: Iraque, Afeganistão, Líbia, Costa do Marfim e Síria numa situação similar, em tempos distintos. Basicamente, tais intervenções obrigam os países que serviram de alvos a se refundarem por si mesmo, mas, ao mesmo tempo, dependendo infinitamente do exterior. Ninguém precisa chegar e dizer: "Síria, ou você faz isso, ou te ataco. Eu sou mais forte e você vai perder!". Todo mundo sabe que a Síria vai perder, o que ninguém percebe é que quem invadir também vai perder. Então, de que adianta a força se não se sabe usar inteligentemente? Já me estendi muito. Estas são as minhas impressões. Espero ter contribuído. Este é um tema bem legal de ser debatido.

Alcir Candido
Alcir Candido

Complementando meu comentário:Até que ponto esse tipo de resposta 'interventiva', antes de pensarmos no jogo clássico 'realista' da busca pelo poder, não seria simplesmente a única resposta que efetivamente temos para eventos que possam afetar a segurança internacional / equilíbrio de poder, antes de simplesmente a 'busca' por algum recurso / poder?

Alcir Candido
Alcir Candido

Giovanni, excelente post! Direto e simples, mas, mesmo assim, completo, muito bom mesmo!Minha dúvida é simples. Se não intervir, se é melhor não arriscar, o que fazer, então?

Jéssica
Jéssica

Olá!Pois então,enquanto nossas queridas potências querem garantir apenas seus interesses econômicos e políticos nessa conturbada região e entram em conflitos desnecessários, temos uma Arábia Saudita altamente repressora que ninguém ( leia-se potências) interfere e/ou comenta/crítica.