Segredos bem guardados…

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Existem dois elementos que geralmente rendem boas histórias para livros e filmes: aventuras em terras estrangeiras (como ser preso por tráfico na Tailândia ou se tornar confessor de um jovem Dalai Lama no Tibet) ou enfrentar problemas em terreno hostil (como ficar preso a uma rocha ou nos destroços de um avião). Os alpinistas norte-americanos Josh Fattal e Shane Bauer vão ter bastante o que contar pois sua história envolve esses dois aspectos – eram eles os prisioneiros norte-americanos que estavam no Irã há dois anos, acusados de espionagem, e libertados neste fim de semana.

Tudo começou com uma confusão com relação à localização do grupo de alpinistas (que incluía uma terceira pessoa, Sarah Shourd, que foi libertada ano passado), que teriam se perdido na fronteira com o Iraque e acabaram parando inadvertidamente em território iraniano em meados de 2009. Esse engano (até que se prove o contrário) se tornou para esses três jovens uma experiência vívida da parcialidade do regime jurídico iraniano. Isolados do mundo, julgados com base em mentiras absurdas e encarcerados sob condições deploráveis, em meio aos gritos de outros presos sendo torturados. O relato desses rapazes é assustador e mostra uma faceta irônica da situação – segundo consta, todas as vezes que reclamavam do tratamento, os guardas os lembravam de como os norte-americanos tratavam seus presos em Guantánamo e Abu-Ghraib.

E assim chegamos ao tema principal do texto de hoje. Não é segredo pra ninguém que quase todos os governos do mundo mantêm ou mantiveram, em maior ou menor grau, algum tipo de repressão política. Porões de ditadura, prisões secretas, campos de trabalho forçado. Cada localidade tem sua variedade de como lidar com prisioneiros políticos (uma “justificação” para se livrar daqueles que incomodam o regime). Como lidam com isso, depende da situação política ser favorável ou não. Mesmo as democracias não estão livres disso! Obama confirmou a existência de prisões secretas e o previu o fechamento destas e de Guantánamo, mas no fim das contas essa continua aberta, e as outras… quem sabe. O Irã obviamente usava os jovens como uma moeda de troca valiosa com os EUA, e sua libertação teria sido um aparente movimento para atrair a simpatia ocidental. Ou teria sido o mero desmoronamento de uma acusação infundada que se tornara insustentável? Ou o valo estratégico dos reféns acabou? É difícil saber.

O que se percebe com clareza é que esses norte-americanos tiveram muita sorte – afinal, sua detenção era uma das principais chantagens contra o país mais poderoso do mundo. Assim enfrentaram, até onde se sabe, julgamento severo e injusto (que custa a vida de muitos em locais como a China e a Tailândia) e prisão insuportável mas saíram relativamente ilesos (ao menos, fisicamente). Por outro lado, quantos prisioneiros políticos como eles estão tendo menos sorte em países de governos mais truculentos, pelo mundo todo. Vamos tomar o exemplo dos países da tal Primavera Árabe… Basta pensar no Iêmen: o presidente Saleh está de volta e fala em transição do poder, mas persistem os choques e as mortes em confrontos com forças policiais. É impossível saber o número exato de mortos – quanto mais de presos, que ficarão sabe-se lá quanto tempo em algum porão até conseguirem sair (SE saírem). E mesmo onde as revoltas parecem ter sido exitosas (como na Líbia), se descobrem segredos cada vez mais aterrorizantes: a bola da vez é a cova coletiva de Kadafi, descoberta pelos revolucionários perto de Trípoli, com as ossadas de mais de 1200 pessoas mortas em protestos contra o regime nos anos 90. É tão ruim quanto (ou pior) do que as valas encontradas nos genocídios balcânicos da mesma época.

O alívio de ver os jovens aventureiros sãos e salvos (independentemente de sua origem ou de como foram pegos – não deve haver terror semelhante ao da impotência ante um sistema todo contra você) contrasta com a angústia de saber que tantos outros estão por aí em condição semelhante ou pior. E descobertas como essa da Líbia, ao mesmo tempo em que são assustadoras, um verdadeiro choque de realidade quando tomamos conhecimento desse tipo de evento, é benéfico que se desacobertem esses abusos. Fica a incerteza.


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