Saúde pra dar e vender

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Em uma decisão histórica, o Congresso norte-americano aprovou a tão falada reforma da saúde defendida pelo presidente Obama em campanha. Falta apenas a votação de alguns ajustes no Senado e a aprovação em definitivo pelo mandatário supremo do Executivo, mas já se considera consolidado o projeto que almeja incluir quase 95% da população sem planos de saúde em uma espécie de SUS compulsório.


Sim, nos poderosos Estados Unidos, na terra dos livres e lar dos bravos, a saúde NÃO é um bem universal. As pessoas só recebem atendimento de saúde gratuito caso sejam aposentados ou pessoas de baixa renda incluídos em programas especiais ou veteranos de guerra. A não ser que você chegue ao hospital com uma faca no peito ou coisa parecida, mas depois vem uma conta pelo correio de qualquer jeito. Comparando ao que ocorre aqui, se no Brasil podemos reclamar da qualidade do SUS, não se discute sua abrangência, pois a maior parte da população se resigna a encarar as filas pelo serviço gratuito e uma minoria se vira com os planos de saúde privados. Aqui, temos um sistema que garante, mal e mal, diga-se de passagem, mas gratuitamente (bem, relativamente, dada a carga tributária, mas isso não vem ao caso…), um direito assegurado pelas instâncias primeiras e mais elevadas do direito internacional ao ser humano, o da saúde. Nos Estados Unidos, você tem saúde da boa e da melhor, mas para vender.

Esse é justamente o grande problema, a abrangência: nos EUA, como no Brasil, uma pequena parcela da população adere aos custosos planos privados, mas o resto não tem acesso aos planos de saúde, e boa parte quando tem os abandona quando a crise aperta. É uma situação caótica e que rumava a um colapso, com a decisão do presidente se demonstrando necessária e fundamental para o futuro do país.

Eis que surgem críticas: os mais comedidos ponderam que são apenas mais custos para a hipertrofiada máquina estatal norte-americana (não se esqueçam que os EUA detêm a maior divida pública do mundo); a maior e mais espalhafatosa delas, no entanto, é a dos detratores mais exaltados de Obamis, os quais dizem que ele já está fazendo a revolução socialista e só falta deixar o bigodão pra virar um Stalin ou coisa parecida. Pura bobagem. De fato, não está se criando algo como o SUS, e sim um plano de saúde do governo com preços bem abaixo do mercado. Isto é, eles vão pagar pelo sistema de saúde pública (bem como nós, que pagamos, e muito). Ao alegar que isso é uma ingerência nas escolhas individuais, os críticos se esquecem que não entra nos méritos das escolhas dos indivíduos a garantia dos seus direitos fundamentais.

Se as coisas vão de mal a pior no cenário da política externa, com a crise rondando a Europa, uma China arisca e o problema sem fim do eixo Bagdá-Cabul, na política interna a solução da crise da saúde pode ser a última cartada de Obama para o sucesso de seu primeiro mandato e a viabilidade de um segundo. Se o processo ocorrer com lisura e planejamento dos gastos públicos, até mesmo a oposição pode ser acalmada, e pode estar sendo criado um sistema de saúde pública gigante, mas coeso e equilibrado. A questão não é pagar pela saúde, mas ter o acesso a ela, e esse plano torna isso possível.


Categorias: Américas


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Felipe
Felipe

Após tantos comentários infundados, eis finalmente um texto coerente e que comenta essa noticias com bom senso!Parabéns!Felipe Silvério