Saúde para todos?

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A saúde é um direito universal, gratuito e garantido pelo Estado. Pelo menos é o que garante a Constituição brasileira em um dos seus artigos mais importantes. Durante mais de duas décadas o Brasil tem perseguido essa realidade, a maior parte das vezes bem distante de cumprir o que determina a legislação máxima no país. A saúde pública existe, o que não existe é a mínima qualidade no atendimento.

A falta de qualidade não é mera crítica ou exposição de uma situação distante do ideal. Na verdade, é uma denúncia de total desrespeito ao ser humano. Não são raras denúncias de situações desumanas contra quem mais precisa das garantias básicas oferecidas pelo Estado. Ao contrário do que um ideal tão bonito como a universalização, o Sistema de Saúde aparece quase sempre como maior problema do país nas pesquisas com a população. Suas aparições nas discussões e na imprensa vem sempre seguidas por denúncia de corrupção, da falta de serviços e de condições vexatórias de atendimento. 

As belas palavras da Constituição são substituídas pela descrença total de que um modelo assim possa funcionar em um país tão problemático. Há não muito tempo atrás, até mesmo um secretário próximo ao Ministro da Saúde haveria dito as seguintes palavras a revista Piauí: “A saúde pública é igual ao papai noel, todas achamos fantástico mas na verdade não acreditamos.”

Ocorre que entre os muitos problemas da saúde surgiram denúncias que dão conta de que além da falta de verbas e de vontade política, a qualidade do atendimento ainda sofre com a falta de responsabilidade dos profissionais da área, já escassos. Em mais de um caso nas periferias ocorreram mortes de pacientes que buscaram ajuda em hospitais e postos de saúde e não a encontraram por estes estarem sob a responsabilidade de profissionais que faltaram aos seus plantões. Mais do que isso, ficou conhecido o costume de determinados médicos da rede pública em burlarem a escala de trabalho, modificando horários de entrada e saída do serviço.

Além da falta com suas responsabilidades cometida por alguns médicos, ficou notório a falta de profissionais em periferias e cidades do interior, sobretudo das regiões norte e nordeste. Falta não pelo sucateamento da infraestrutura, não pela falta de dinheiro para se pagar novos profissionais, mas sim pela ausência de médicos com vontade de trabalhar nesses locais, mesmo com garantias de salários melhores do que os encontrados nas cidades grandes e capitais. 

Defendendo solucionar essa situação, o Ministro da Saúde afirmou que o Brasil faria uma tentativa de buscar profissionais de Cuba dispostos a trabalharem em hospitais de periferia e cidades do interior. Mais tarde, afirmaria que o país fechou um acordo internacional para trazer médicos em massa da Espanha e de Portugal dispostos a trabalhar nos mesmos locais.

O Conselho Nacional de Medicina, que até então não havia se pronunciado a respeito da polêmica falta de interesse dos profissionais em trabalharem nesses locais, foi fortemente contrário a movimentação do governo, chamando a medida de temerária e desrespeitosa. Entre os argumentos dos médios brasileiros, estava o de que não se tinha provas suficientes da qualidade dos profissionais trazidos de outros países e se o conhecimento técnico dos mesmos estaria de acordo com os padrões nacionais. Na verdade, a palavra do Conselho causa determinado temor, pois se não se sabe se os profissionais que vem para o país tem costumes piores do os já vistos, como de faltar em seus plantões e deixar seus pacientes a beira da morte ou quase nunca preferir atender a população carente, então não saberíamos quais são essas práticas ainda piores do que a realidade atual. 

Em contrapartida as fortes críticas do Conselho de Medicina, seguiram ataques fortes a toda condição médica no Brasil. Houve quem chamasse o Conselho de corporativista e defensor de um monopólio dominado por um número limitadíssimo de profissionais. Esse só seria o ponto máximo de uma realidade construída desde o elitismo da carreira, da dificuldade de se cursar uma universidade de medicina, da formação de poucos profissionais que quase sempre fazem parte da casta das pessoas mais rica do país, dos melhores alunos possíveis, dos moradores das cidades mais desenvolvidas etc. 

Tudo parece levar a que quase todos os profissionais de medicina preferissem carreiras como profissionais liberais, donos de consultórios, de clínicas e hospitais particulares que privilegiassem o status e o lado financeiro. Não por culpa dos médicos, mas sim de uma conjuntura construída para corroborar toda a realidade brasileira, menos a universalização da saúde. Ocorre o mesmo com as profissões que envolvem o ensino e a educação.  Com o agravante de que por serem poucos os médicos, não sobrariam muitos dispostos a trabalharem por salários pequenos e longe dos grandes hospitais públicos dos centros urbanos, de boas universidades etc. 

Se analisarmos a medicina no país como elitista chegaremos logo a uma contestação péssima: é impossível pensarmos em saúde universal e para todos se até mesmo na formação dos profissionais não existem cursos, estudantes e médicos suficientes. E não tão cedo haverão. Além disso, não existe vontade nem do governo, nem da mentalidade dos profissionais da área em universalizar o sistema. E o elitismo a esse respeito fica mais evidente ao pensarmos no próprio acordo fechado pelo Ministério da Saúde. Afinal, deixando de lado toda a polêmica em torno do caso, podemos chegar na seguinte questão. Como se encontram profissionais de países europeus, como Espanha e Portugal, dispostos a trabalharem em locais periféricos do Brasil em que sobrem vagas pela falta de interessados em pegá-las? Aparentemente está mais fácil encontrar médicos para periferia dentro dos países desenvolvidos do que no universo de médicos brasileiros. 


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