Saramago: entre ensaios e memórias

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“Nada é para sempre, dizemos, mas há momentos que parecem ficar suspensos, pairando sobre o fluir inexorável do tempo”. E hoje paira sobre o nosso tempo o falecimento do autor dessa frase. José Saramago, figura internacionalmente conhecida por seu importante papel na literatura, deixa um grande legado ao final dos seus 87 anos de vida.

Antonio Gramsci, teórico bastante conhecido na Ciência Política e nas Relações Internacionais, conceitua as idéias de hegemonia, apresentando a importância dos estudos culturais na sociedade. Sociedade esta que, para o autor, é composta pela infra-estrutura (notadamente focada nos aspectos econômicos) e pela superestrutura, a qual, por meio da formação ideológica pode promover transformações sociais.

Tal como Juliano Candido apresenta em sua monografia, “o aparato cultural é entendido por Gramsci como sendo o veículo de difusão de ideologia, portanto, de luta por hegemonia, uma vez que possui função educativa e é continuamente mediado pela censura”.

Neste contexto de valorização do aparato cultural é que o legado de José Saramago se insere e ao qual devemos dedicar especial atenção. Polêmico, o português Saramago abandonou voluntariamente seu país de origem, após o escândalo no meu católico português advindo da publicação de seu “Evangelho”, no qual Jesus perde a virgindade com Maria Madalena.

Neste contexto, em 1993 o governo português suprimiu o autor da lista de candidatos ao prêmio europeu de literatura. Cinco anos depois, em 1998, Saramago seria o único escritor de língua portuguesa a receber o prêmio Nobel da Literatura, reforçando a importância da superestrutura gramsciana na sociedade em que vivemos.

Seu legado literário e sua atuação marcante como defensor dos oprimidos e crítico do ex-presidente americano George W. Bush faz com que sua morte ganhasse espaço na mídia internacional, repercutindo inclusive politicamente em Portugal. Destaca-se também sua defesa da causa palestina, sendo que o chefe do Comitê de Relações Internacionais do Fatah, lamentando oficialmente a morte de Saramago, reforçou que este “mostrou ao mundo que a causa palestina é universal”.

Aliás, o mundo inteiro se mobilizou em declarações e homenagens a José Saramago. Nas suas próprias palavras, “Como cidadão, o escritor tem compromisso com seu tempo, seu país, as circunstâncias do mundo. O futuro vai julgar a obra do autor, mas o presente tem o direito de fazer um juízo sobre o autor que ele é.” E certamente trata-se de um juízo muito positivo tanto para os países de língua portuguesa como para a comunidade internacional em geral.


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