Salas de recepção

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Nos últimos dias temos observado interessantes visitas internacionais muito bem destacadas na mídia nacional e internacional. Ambientes de recepções caracterizados pela diversidade dos seus hóspedes, oscilando entre aqueles bem-vindos e aqueles muito mal queridos. Bom, comecemos pelo Brasil. O governo brasileiro já se organiza para uma visita presidencial aos moldes dos grandes eventos musicais, como o Rock in Rio.

A vinda do presidente estadunidense, Barack Obama, e de sua comitiva ao país tem agitado os ânimos dos brasileiros e as expectativas dos Estados Unidos. Expectativas essas de mobilizar não só o Itamaraty ou o governo brasileiro da importância da parceria Brasil – Estados Unidos, mas também com forte apelo à população, com discurso de Obama a ser proferido ao público geral brasileiro. Um hóspede que oferecerá uma negociação de dois âmbitos. A primeira do governamental, por negociações diretas em Brasília, e a segunda, no âmbito social, com um discurso à população que visa reforçar a importância dessa parceria estratégica e despertar no povo esse sentimento.

A primeira insere-se nas recepções acaloradas. Agora, também é de se notar uma recepção quente, que trouxe muito calor e insatisfação para os protestantes no Bahrein. País que se encontra envolvido na onda de protestos do mundo árabe, dessa vez uma população de maioria sunita volta-se contra a dinastia xiita, dos Khalifa, que se encontra no poder há mais de duas centenas de anos. As reivindicações da população se inseriam no âmbito de protestos pacíficos quando iniciados em fevereiro, tanto que o governo apontou para possibilidade do diálogo, prometendo a criação de melhores condições para a população e libertando presos políticos.

O diálogo não foi o suficiente e com o prosseguimento dos protestos, o rei Hamad bin Isa al-Khalifa, logo apelou para a repressão. A quente recepção foi observada quando o rei pediu apoio do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) para operar na repressão dos protestos. Logo desembarcaram no Bahrein tropas sauditas e do CCG (que seriam mais que suficiente para assegurar a visita de Obama) mas tinham um propósito mais, digamos, repressivo (apesar de os sauditas dizerem diferente). Como destacou um artigo da Foreign Policy, a organização foi criada como forma de os países da região lidarem com agressões militares externas a quaisquer membros, e não é o que se observa no caso.

Nesses diferentes ambientes de visitas, enquanto no Brasil, é acalorada e o hóspede é bem querido, no Bahrein, a recepção é quente e os hóspedes malditos para o prosseguimento dos protestos. De um lado observa-se a vontade de reconstruir a importância estratégica e ampliar o entendimento conjunto, de outro, há a imposição da estratégia de repressão e de um entendimento de manutenção de situação vigente. Apesar de contextos diferentes e métodos divergentes, ambas visitas também visam atingir um ponto em comum: as populações locais.


Categorias: Brasil, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


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