Saia Justa

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[Pessoal, ultimamente temos feito muitas postagens sobre temas que envolvem a política externa brasileira, eu admito. Acontece que ultimamente tem ocorrido muitas coisas que envolvem nosso país e não podemos deixar isso de fora do blog. Sugestões para postagens ou podcasts? Email para [email protected]]

Nosso país foi convidado para participar da Cúpula Árabe, que está ocorrendo hoje no Catar. Na verdade, está ocorrendo uma reunião que discute as relações entre as nações árabes e a América do Sul.

A reunião obviamente é importante e o Brasil não poderia ficar de fora. Os árabes representam um grande mercado para nossos produtos. No início do governo Lula foi um dos alvos das primeiras negociações comerciais, num dos poucos golpes certeiros do nosso governo em questões de comércio internacional.

O problema é que agora o feitiço tem virado contra o feiticeiro. O Brasil tem dado apoio político a muitas das nações árabes. Muitas delas ficam na África, onde o clima político é quente e há sérias polêmicas envolvendo direitos humanos, tirania política e outros males. Dentre esses governos questionáveis se destaca o do senhor Omar Hassan-Bashir, presidente do Sudão, contra o qual o Tribunal Penal Internacional publicou seu primeiro mandado de prisão contra um presidente em exercício. (clique aqui e aqui para entender melhor).

Em troca do apoio brasileiro, o Sudão tem se mostrado um parceiro político e comercial importante do Brasil na África.

Pois é. E agora? Teoricamente, o Brasil poderia até prender o presidente sudanês e entregá-lo à jurisdição do Tribunal Penal Internacional, assim como alguns dos países presentes à Cúpula. O próprio Bashir já se manifestou várias vezes publicamente afirmando esperar o apoio formal do Brasil contra o Tribunal (leia aqui a entrevista exclusiva de Bashir ao Estadão).

O Brasil, no entanto, não se manifestará contrário à decisão do Tribunal (uma decisão muito mais do que prudente) mas também não prenderá nem condenará Bashir, tampouco se colocará contra uma declaração da Liga Árabe (que já saiu, inclusive, veja aqui) que condene a prisão do sudanês (decisão igualmente prudente, uma vez que não se pode ignorar o que os árabes representam, e nem é de bom tom chegar na casa dos outros ‘causando’, como se diz por aí).

Taí o tal comportamento diplomático. O Brasil nem se queima com um, nem com outro. Mas isso não tira a saia justa na qual estamos.


Categorias: Política e Política Externa


5 comments
Alcir Candido
Alcir Candido

Leo, eu não concordo com você pelas mesmas razões que eu já coloquei acima.se o Brasil quisesse reclamar de alguma coisa, não deveria ter ido. Se foi, não deveria arrumar briga lá.em termos internacionais, existe a tal da diplomacia, o comportamento diplomático, isso é um 'costume' muito antigo no plano internacional. se o Brasil for reclamar, portanto, não o fará lá de jeito nenhum.o brasil se calou naquela situação, e aquilo foi prudente. como eu disse no comentário anterior, existem outros fóruns internacionais pra se reclamar disso, como o conselho de segurança da ONU, o próprio TPI, a Assembléia Geral da ONU, enfim...não acho que a Liga Árabe seja um 'encontro de criminosos' e tb não sei no que vc se baseia para fazer esse tipo de acusação. Existem países sérios lá e aqueles de caráter duvidoso. Como não existe um poder superior central no plano internacional e os Estados são soberanos, o Brasil não tem poder sozinho pra revolucionar e separar o joio do trigo por lá. E tb não existe uma "Reunião dos Países que não Praticam Crimes Contra a Humanidade" pro Brasil ir fazer acordos, então não tem jeito.Na linguagem diplomática, um simples deixar de apertar a mão já é uma sinalização de alguma coisa séria. Por isso, nestes casos, o calar-se já quer dizer muito. Ainda mais no caso do Lula que se resolvesse falar sobre isso com certeza ia falar besteria;bom, essa é minha opinião, e de forma alguma ela é a 'superior'. de qualquer forma, seus comentários com certeza fazem sentido e manifestam outra visãoobrigado por aparecer aqui no blog e apareça sempre!

Leo.
Leo.

Alcir,i) não deveria compensar então ter picuinhas com outros países por declarações mais ácidas que nossos representantes soltam;ii) calar é apoiar o regime, ou você acha que ele vai resolver parar sozinho?iii) já foi um erro ir ao forum. é quase um encontro de criminosos, provavelmente o pessoal do PCC poderiam aprender muito com eles;iv) uma política externa que dá suporte e amizade a países que dão apoio unânime ao ditador sudanês não pode querer criticar invasões a iraque ou faixa de gaza, obviamente coerência não é algo que política exterma possa ser acusada em qualquer lugar do mundo.Pessoalmente considero imprudente a própria ida do presidente Lula até lá quanto mais ter ficado próximo a este tipo de figura (mas se bem que ele deve estar acostumado a criminosos...)

Alcir Candido
Alcir Candido

Leo, quem acompanha o blog sabe que eu não sou muito fã da nossa política externa, mas neste caso acho que o Brasil foi prudente em não se manifestar. Não houve apoio ao Sudão e o Brasil não deixou passar uma carta final em que assinasse qualquer apoio ao presidente Bashir. No entanto, não seria adequado em um fórum em que TODOS estão de acordo com uma coisa que o governo se manifestasse contrário e até de repente prendesse o cara. Aí foi a prudência, o Brasil não apoiou mas também não arrumou uma picuinha que teria conseqüências em nossa relação com o mundo árabe por causa de um ditador do Sudão. Existem outros fóruns para se ter esse tipo de atitude que não a Liga Árabe.até mais!

Leo.
Leo.

Depois alguém pergunta por que ditador sanguinário sai do poder com invasão estrangeira. Quem dera o Sudão tivesse uns recursos naturais importante. Pobre Sudão. E para variar os árabes demonstram sua conhecida capacidade de viver num mundo só deles.Apoio ao Sudão... putz... Prudência deve existir dentro de limites da moralidade não da covardia.

Antonio
Antonio

A prudência será válida se o Lula não abrir a boca. Se ele começar: "Companheiros... aí, com certeza, a "vaca vai pro brejo".Abraço,Regly