Roda Viva

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Grandes intérpretes e cantores brasileiros fizeram música como forma de protesto frente ao regime militar brasileiro. Dentre eles, destacou-se Chico Buarque, com sua seminal canção Roda Viva, que trata metaforicamente da existência de “algo” – uma roda viva – que limita as iniciativas e liberdades dos brasileiros. Até hoje a canção é referência brasileira e internacional dada a sua maestral elaboração e a sua grande importância em seu contexto.


Saindo um pouco do conturbado contexto da ditadura militar brasileira e adentrando outro, tão violento quanto, o do Oriente Médio, poderíamos até metaforicamente questionar se não existe “algo” semelhante que impede o progresso das negociações entre Israel e Palestina. Isso porque toda vez que se acredita haver avanços nas negociações sempre parece surgir algum entrave e tudo retorna para o estágio inicial.


O mais recente episódio que podemos lembrar foi o ataque israelense à flotilha turca de ajuda humanitária à Faixa de Gaza que garantiu grande descrédito internacional a Israel e degradou mais ainda as relações turco-israelenses (mesmo considerando a possibilidade de os tripulantes carregarem armas a bordo). Outro caso foi quando “alguns tomaram a iniciativa” e decidiram às negociações enfrentar – no caso, Mammoud Abbas no inicio do ano que havia decidido retomar as conversas com Israel – mas, novamente, “eis que chegou a roda viva e carregou as conversas pra lá” – Israel declarou que continuará a expandir os assentamentos judaicos em Jerusalém.


Mas a roda viva não atuou somente do lado israelense. No final de 2008, o grupo Hamas lançou ataque à faixa de Gaza ocasionando a morte de alguns israelenses e conturbando mais ainda as negociações. O evento desencadeou um dos maiores ataques de Israel aos territórios palestinos, no qual a busca de eliminar o Hamas, resultou em muitas baixas civis.


Atualmente a credibilidade internacional do Estado de Israel está fragilizada desde o ataque à flotilha. Agora, o país tem tentado driblar os efeitos negativos da suposta roda viva sobre sua imagem, cedendo a algumas das pressões internacionais. Na quinta-feira, por exemplo, o país abrandou o bloqueio à faixa de Gaza – instaurado em 2007 com a vitória do Hamas sobre o Fatah nas eleições nos territórios palestinos –, permitindo a entrada de certos gêneros alimentícios e de materiais de construção sob supervisão externa. Israel não se mostrou muito transparente nessa mudança no regime do bloqueio, já que apenas citaram a mudança no texto em inglês (será que propositalmente?). Outra medida de concessão, que cabe ser citada também, foi a investigação israelense do ataque à flotilha e assim, o reconhecimento de certos erros no evento.


Apesar de parecer algo significativo, as medidas israelenses não são suficientes para reavivar qualquer processo de paz na região. Pode-se dizer que apenas funcionam como forma de abrandar os efeitos da “roda viva” sobre as negociações, ou seja, lograrem um pouco mais de credibilidade internacional – principalmente o apoio de parceiros essenciais como os Estados Unidos ou a União Europeia -. Cabe lembrar que “ironicamente”, a publicação dessas medidas coincidiu com a data do início giro diplomático estadunidense à região. Será que Israel pretendia mostrar algo a alguém?


De toda forma, essa suposta nova tentativa estadunidense de aproximar as relações entre Israel e Palestina, até pode surtir em alguma inflexão postiva. Todavia, há também a grande possibilidade de que, como cantou Chico Buarque, seja apenas “ilusão passageira, que a brisa primeira levou”, e que assim mais uma vez a nossa roda viva leve a frágil negociação para lá.



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