Revoluções e revolucionários

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“Às vezes, no curso da história, as ações de cidadãos comuns desencadeiam movimentos por mudança porque elas falam a um anseio de liberdade que vinha se formando durante anos. […] A história dessa revolução [da Tunísia], e das que se seguiram, não deveria causar surpresa. […] Esses gritos de dignidade humana estão sendo ouvidos por toda a região.” […]

Estes breves excertos foram retirados da tradução do discurso de Barack Obama sobre o Oriente Médio realizado ontem (leia a íntegra traduzida aqui e uma análise a respeito aqui) e cuja mensagem reforça o poder de transformação destes acontecimentos tão recentes e já históricos na luta pelos direitos civis nos diversos países da região.

Neste sentido, os comentários deste post serão baseados na explanação da reconhecida filósofa Marilena Chauí (currículo lattes aqui) por ocasião do evento “Revoluções – Uma política do sensível”, realizado entre hoje e amanhã em São Paulo. O intuito é apenas incentivar a discussão acerca desta temática que tem sido tão freqüente nos noticiários, mas sobre a qual constantemente não refletimos de forma mais aprofundada.

Todos os países árabes que tiveram movimentos políticos revolucionários nos últimos meses possuem diferenças e semelhanças entre si. Entre as diferenças, destacam-se a questão da existência (ou não) de oposição política interna; a força da religião; a força dos exércitos profissionais e a organização policial internas; a existência (ou não) de uma classe média urbana escolarizada; a predominância de uma organização tribal comunitária ou de uma sociedade civil individual; e a falta de homogeneidade econômica – sendo este último fator determinante para avaliar os interesses internacionais envolvidos (!). Já em relação aos aspectos comuns, destacam-se a existência de ditaduras que inspiraram a resistência; os efeitos do colonialismo e do imperialismo nas localidades, assoladas por desemprego e miséria; o caráter popular dos movimentos (nas ruas); a mobilização via internet; e a luta por direitos, tais como liberdade e igualdade.

A partir desse panorama básico, é interessante perceber a dificuldade generalizada em se definir o caráter dos manifestantes árabes. Seriam terroristas? Insurgentes? Rebeldes? Revoltosos? A partir dos acontecimentos no Egito, convencionou-se caracterizá-los, enfim, por “revolucionários”. Trata-se de um conceito cuja definição remonta ao século XVII e sobre o qual vários autores consagrados já dissertaram (possíveis leituras a respeito aqui, aqui e aqui).

Válido neste breve espaço é apenas constatar que, com a modernidade e as muitas lutas vivenciadas, os homens passaram a conquistar Declarações de Direitos Universais. Assim, as revoluções vêm representar mudanças nas formas de poder e não simplesmente nas formas de governo. Poder este que está intrinsecamente relacionado à participação popular, tais como pode-se presenciar tão claramente nas revoluções atuais no Oriente Médio.

Mais interessante ainda é perceber que a partir da suposta “universalidade” destes direitos adquiridos com tanta luta, inevitável e constantemente são abertas brechas que demonstram a existência dos “excluídos” (aqueles que, por algum motivo, ficam à margem do processo e, paradoxalmente, não têm acesso aos direitos universais). E é a partir destas brechas que as lutas seguintes são fomentadas… ciclo interessante e contraditório em si mesmo, não?

Por fim, percebe-se que os “gritos de dignidade humana” destacados por Obama em seu discurso representam, pois, a necessidade constante de garantir a participação popular no desenvolvimento das sociedades. Apenas desta forma pode-se esperar que sejamos todos “revolucionários” na luta por liberdade, igualdade e, de forma geral, dignidade. Seja no Oriente Médio ou nas nossas próprias realidades cotidianas…


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


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