Revolta russa

Por

“Não!”


Todos devem conhecer, ou ao menos ter visto, aquelas famosas bonecas Matrioshka russas. É um brinquedo tradicional em que há várias bonecas que uma dentro da outra. A analogia é batida mas bastante esclarecedora pro caso da política na Rússia – quando o presidente atual, Dmitry Medvedev, foi eleito, era como se o eleitorado russo estivesse abrindo uma Matrioshka de Vladmir Putin com um Medvedev dentro para sucedê-lo – afinal, era o candidato do ex-presidente e a indicação foi mais que clara e esperada. O problema é que, agora que as eleições se aproximam novamente, o povo russo está indignado de ver que dentro da Matrioshka Medvedev há um mais um pequeno Putin, agora primeiro-ministro, esperando para voltar.

Já falamos do assunto recentemente. Quem acompanha o noticiário está sabendo do rolo que acontece na Rússia – as eleições parlamentares ocorreram dia 04 de dezembro e foram marcadas por fraudes a favor do partido de Putin (que teve alguns “votos extras”); com isso, vieram grandes protestos exigindo o cancelamento das eleições, o fim da corrupção e a libertação de presos políticos. Parece até o que anda acontecendo no Brasil nos feriados, e mesmo os políticos estão dando um “jeitinho” brasileiro pra contornar a situação: deixar o problema ir correndo pra lidar com ele depois, passar as festas de fim de ano e ninguém mais lembrar disso mais pra frente. Qualquer semelhança com os pacotões aprovados pelo nosso Legislativo no fim de ano é mera coincidência. Ou não?

Enfim, a coisa tá feia na Rússia, por que os que protestam agora são aqueles que apoiaram Putin ao longo de seu mandato. O presidente que almejava trazer a Rússia de volta ao seu papel de protagonista no cenário internacional reergueu uma economia quase falida e trouxe consigo uma classe média letrada e bem de vida. E é essa classe que protesta contra o modo de atuação dessa “nova” Rússia que está mais para o que acontecia nos bons e velhos tempos de União Soviética. Ao mexer os pauzinhos para que voltasse à disputa presidencial em 2012, Putin fez a população se sentir traída e manipulada. O problema não é a volta de Putin per se, isso é algo que já era esperado faz tempo, desde a eleição de Medvedev. O problema é que ambos andavam meio brigados, e houve até quem cogitasse (este que vos escreve incluso) que isso era uma manobra maquiavélica deles para legitimar o retorno de Putin sem parecer muito suspeito. Dito e feito, e com isso a impressão deixada para os russos de que o acordo foi acertado entre dois indivíduos, passando por cima da democracia.

Mas talvez o pior de tudo é que não haja outra opção – os partidos de oposição são fracos e sem idéias sólidas: talvez seja isso que angustie o eleitorado russo, não ter outro candidato mais confiável (ou menos “desconfiável”?) que o ex-agente secreto. Mas, agora que essa massa se sente atingida, Putin tem que enfrentar uma oposição bem mais consistente do que jamais teve. Não sei se vamos ter uma “primavera russa” (melhor nem cogitar esse tipo de predicado), nem uma revolução, mas 2012 promete agitação das boas na vida política daquele país.


Categorias: Europa, Política e Política Externa


0 comments