Retrospectiva 2010: o mundo em estrofes – Parte 2

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[Continuação]

E os direitos humanos? A mídia até se cansou de tanto polemizar o caso da iraniana Sakineh. Enquanto isso, mataram silenciosamente a norte-americana Teresa Lewis. Ninguém protestou. E depois os Estados Unidos quiseram lutar pela proteção dos direitos humanos no Irã, na China e em Mianmar. Outros, de fato, lutaram pela causa. Nos dois últimos países, os exemplos são Liu Xiaobo e Suu Kyi (recém-libertada), respectivamente, a ponto de serem contemplados com o Nobel da Paz; o primeiro, este ano, a segunda, em 1991. E os dissidentes cubanos, aqueles que combateram com a fome e a voz um regime político fechado? Mártires de um solo revolucionário e inspirador, e que testemunhou o retorno de Fidel Castro.

Diante de tantos acontecimentos, compusemos estas estrofes isoladas, sem o poema mundo. Os ciganos, os árabes e os africanos não conseguem um lugar ao sol na Europa. Os latinos não são incorporados pela sociedade norte-americana. As guerras, ou a perspectiva delas, assustam. O terror assusta, mas o que o motiva se cala. Meio ambiente e direitos humanos produzem mais dissensos do que consensos; economia então, nem se fala. Tantas coisas nos separam e nos estranham. Mas somos humanos, animais políticos e também amorosos.

A política e o amor renderam ao escritor peruano Mario Vargas Llosas o Nobel da Literatura este ano. E quem não se emocionou com o filme “Flor do deserto” acerca da luta contra a mutilação genital feminina na Somália, em particular, e na África, como um todo? O amor de Waris Dirie pela família e pelo continente e sua luta contra essa tradição traumática. E o mineiros chilenos, um exemplo de fé e perseverança. É certo que muitas vezes erramos, retrocedemos e nos machucamos mutuamente, porém, somos uma humanidade em evolução, cuja adaptação ao meio contribui para o fortalecimento da espécie.

Amor e política conversam, basta querer. Nossos heróis de palavras emudecidas ou de gritos retumbantes nos ensinaram. Não importa as bandeiras, as cores, as raças, os ideais que carregam, mas as auroras que vislumbram. “O que acontece com qualquer um de nós, afeta a todos nós”, diz Waris Dirie, a protagonista do filme citado. Não deixemos que esta flor murche nos desertos de nossa ignorância e descaso. Não deixemos que a dignidade humana venha nos sopros de misericórdia pelos que se arriscam e acreditam. Que as estrofes que nos separam mantenham sempre a esperança no horizonte e o poema de união no amanhã.

Se 2010 ficou para história, 2011 vem para fazermos história. Feliz Ano Novo a todos nós!


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