Representando…?

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Preparações para o milésimo post à parte, a equipe do blog não deixou de acompanhar o farféu que foi a semana passada na política internacional. E que semana! Rio +20, golpe branco no Paraguai, confusão no Egito, matança (não que seja novidade) e deserção na Síria, a Europa respirando um pouco aliviada, a vida de Julian Assange virando filme de James Bond… Mas vamos focar em dois casos hoje. 

No Egito, após uma semana de protestos, que iam da insatisfação com resultado do julgamento do ex-presidente Mubarak ao acúmulo de poder dos militares, e de denúncias de corrupção e fraude eleitoral, saiu o resultado oficial da eleição de uma semana atrás. Mohamed Morsy, candidato da Irmandade Muçulmana, foi eleito presidente, o primeiro na história do país por meio de eleições livres. Já por essas bandas, no Paraguai, o polêmico presidente Fernando Lugo acabou sendo defenestrado pelo Congresso com base em acusações meio forçadas, e o resultado foi a desaprovação total dos vizinhos, e até mesmo a ameaça de remover o Paraguai do Mercosul por violação da cláusula democrática do acordo. 

O que podemos tirar de uma comparação entre os casos? Parece que o tema da representatividade é a bola da vez. No Egito, temos pela primeira vez em sua história um presidente eleito pela maioria. Claro que é difícil pensar em como definir “maioria” no caldo de diversidade política que se tornou o Egito, mas estamos falando de um representante de uma organização muito ativa (tanto que sobreviveu a mais de 30 anos na clandestinidade) e que realmente tem apoio popular. Pela primeira vez, teremos um governo que, de certo modo, e após as eleições presidenciais e legislativas, representa efetivamente a “maioria” da vontade do país. Como isso vai repercutir é o grande mistério. Por um lado, apesar de ser uma organização islâmica, a Irmandade não é radical, prestando serviço assistencial entre outras coisas. Por outro, ainda é islâmica, e tende a se aproximar com o Irã e deixa Israel com os cabelos em pé, já que pode dar adeus ao Egito, antes um antigo aliado. Mas não deixa de ser um dos momentos mais importantes (talvez o mais importante até agora) desde que começaram os protestos no Oriente Médio, em 2011, e apesar da presença dos militares no governo, bem ou mal, estamos vendo uma democracia representativa trabalhando nos eixos. 

Já no Paraguai a coisa é mais séria, pois vai justamente pela via contrária. O ex-presidente Lugo se envolveu em muitos escândalos e crises, mas nada que justificasse a blitzkrieg que o Congresso montou contra ele na semana passada. Se a aprovação em tempo recorde do pedido de impeachment já não era totalmente suspeita, quando se analisa o tipo de acusação que foi feita pra basear o pedido, mesmo que com todo amparo legal, vemos que tem algo muito errado. Não vamos entrar nos méritos das acusações serem justas ou não – a questão aqui é que temos uma tática do partido Colorado e de grupos da classe agrária para remover do poder o presidente que contrariava seus interesses políticos. Parece claro que o que aconteceu ali foi uma briga de poder e das feias que resultou num golpe. Lugo e seu partido estavam isolados, mas a sua remoção representa efetivamente a vontade da maioria? Ou seja, todo o processo de impeachment levado a cabo pela oposição, reflete a vontade daqueles que os elegeram, ou foi uma manobra meramente política, pra redistribuir o poder? O problema aqui é que haja essa busca do poder pelo poder, e não para resolver questões específicas – ou pior, sem pensar nas conseqüências. E elas estão vindo, com a desaprovação de fora, que vai ter seus impactos na economia paraguaia… 

E tudo isso num país relativamente pequeno que tem menos gente que na cidade de São Paulo. Imaginem no Egito. Em longo prazo, com as pressões e interesses, até que ponto a “vontade da maioria” vai ditar os rumos do novo governo? Podemos dizer que uma democracia representativa plena é quase impossível (por exemplo, o que é a “maioria”?), mas quando grupos políticos passam a agir em função de manter a sua continuidade no poder, a coisa vai pelo ralo de vez. Vamos ver até onde o novo governo do Egito resiste a essa tentação.


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