Renovando?

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“O poder político nasce do cano da espingarda”. Proferida por Mao Tsé-Tung em outros tempos, essa frase não deixa de ser carregada de uma verdade que, em termos realistas, talvez nunca deixará completamente de existir. Contudo, o poder político deste século parece ser cada vez mais reforçado pela voz, pelo espaço multilateral e pelo diálogo, elementos que caracterizam o chamado soft power – constante e essencial às relações internacionais.

Neste contexto, as Nações Unidas – mesmo com todas as suas imperfeições e necessidades de reforma – ainda representa o espaço multilateral de maior relevância no mundo. E dentro dessa estrutura – ainda que arcaica em vários aspectos – o Conselho de Segurança (CS) ainda é o “coração” da ONU, a partir do qual todas as decisões mais importantes devem passar pela aprovação das cinco potências permanentes. [Mais sobre a estrutura do CS aqui.]

Além destes cinco membros permanentes que guardam a exclusividade do veto, a dez outros países é concedida a possibilidade de tornarem-se membros não-permanentes, com mandatos rotativos de dois anos de duração. Apesar de não terem o direito a veto, a voz e o voto são garantidos, exercendo um poder de influência considerável em relação às principais questões internacionais. Ontem foram eleitos cinco novos membros para este mandato rotativo durante os próximos dois anos (2013-14): Argentina, Austrália, Coreia do Sul, Luxemburgo e Ruanda foram os países escolhidos, de acordo com os candidatos de seus respectivos continentes.

Dentre esses cinco países, a escolha de Ruanda (apenas pela segunda vez na história) foi a mais polêmica, dada a situação delicada da região e o suposto apoio do país aos rebeldes no leste da República Democrática do Congo. A situação atual já dura meses e o papel ruandês na manutenção desta situação foi recentemente criticado pela própria ONU. Esforço diplomático ou incoerência? Talvez um misto das duas coisas…

Por mais que a estrutura onusiana enfrente críticas, uma verdadeira possibilidade de reforma ainda está longe de ser vislumbrada. Enquanto isso, participar ativamente (das instâncias que são acessíveis!) demonstra um fortalecimento do prestígio e da capacidade de articulação política dos países – elementos de um tipo de poder que, a cada dia mais, pode desafiar a lógica baseada no “cano da espingarda” em nossa sociedade internacional. 


Categorias: Organizações Internacionais


2 comments
Cairo Junqueira
Cairo Junqueira

OláNa verdade, o Conselho de Segurança da ONU não reflete o jogo de poder mundial do pós-Guerra Fria, mas sim do pós Segunda Guerra Mundial.Em partes, devido a este fato, não só os EUA possuem poder de veto. Os cinco membros permanentes detêm esta prerrogativa, sendo eles o próprio EUA, França, Reino Unido, China e Rússia.Mais do que indagar o controle dos EUA sobre a ONU, vários debates questionam o contrário: o controle da ONU sobre os EUA. A capacidade e representatividade deste país são inquestionáveis, todavia não se pode falar o mesmo da organização.Abraços

Anonymous
Anonymous

O conselho de segurança da ONU é a materialização de que o mundo tem, após o final da guerra fria, apenas um dono. Ora, se os EUA é o único país membro desse conselho e com poder de veto, que tendo como paradigma histórico o chefiar do planeta fica evidenciado o seu controle sobre a própria ONU.