Reforma do Conselho de Segurança: uma loteria?

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É lugar-comum, no pensamento futebolístico, afirmar que qualquer decisão por pênalti é uma loteria, em que a sorte se antepõe a competência e o estado emocional. E nos domínios da política mundial, tal lógica encontraria espaço? Depende do que faz a ocasião e do que fazem os jogadores nos momentos decisivos. A reforma do Conselho de Segurança voltou à tona. O principal órgão da ONU permanece congelado pelas estruturas de poder precursoras de uma findada era bipolar.

Acontecimento fortuito, porém já previsto, foram as eleições norte-americanas. A esmagadora derrota dos Democratas pareceu profetizar um olhar para a agenda externa. Em seu tour pela Ásia, Obama trouxe logo de cara um dos temas mais caro, recorrente e controverso. Ao discursar no Parlamento indiano, o presidente declarou abertamente apoio ao ingresso da Índia como membro permanente do Conselho de Segurança. Não bastasse isso, ainda afirmou que o país não está apenas emergindo, mas que já emergiu, e sua parceria com os Estados Unidos será uma das mais definitivas do século XXI.

Esta atitude pode girar no ciclo da sorte e da competência. Por um lado, é inegável o intento de Obama de neutralizar a projeção de poder chinesa, em tempos de crise econômica nos Estados Unidos e descrédito político na China. O governo chinês até se manifestou favorável à reforma do Conselho de Segurança, mas silenciou quanto à entrada da Índia, país com o qual detém rivalidades históricas, de questões fronteiriças a religiosas. Por outro lado, o presidente norte-americano pode chutar esta iniciativa por cima da trave, quando quem defende o gol é o Paquistão. Não é novidade a velha questão da Caxemira, porém é preciso adicionar que o país é ponto focal da política externa norte-americana em se tratando do combate ao terrorismo.

Inevitavelmente, recai-se numa discussão que muito nos interessa: e o Brasil diante deste quadro? Vamos ou não para a realeza internacional? Para o presidente Lula, o apoio declarado de Obama à Índia não desconsidera a pretensão brasileira, visto que a ampliação do Conselho de Segurança superpõe-se ao mero acréscimo de um membro permanente. Outras análises, como a do ex-chanceler Lampreia e de Spektor, consideram oportuna a volta do debate sobre a reforma do órgão e pode abrir espaço para o governo brasileiro reiterar o seu pleito. Uma nota breve sobre isso: este golpe da sorte não pode ser traduzido por nossas vocações naturais ou históricas, isto é, fatores geopolíticos (população, território, recursos naturais, etc.) ou das lembranças da Sociedade das Nações e das memórias do ex-Secretário de Estado Cordell Hull. É preciso que nossa sorte seja acompanhada por capacidades, fruto da simbiose entre a palavra e a força. Alguém já ensinou que diplomacia sem o componente militar é apenas um exercício de retórica.

Seis acasos proporcionaram o encontro entre Tomas e Tereza em A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera. Porém, não se pode negligenciar o poder da escolha, ainda que decorrente do acaso. Quantos acasos são necessários para conduzir a escolhas que modifiquem o congelado Conselho de Segurança? A insustentável leveza das nações é um romance – e, portanto, o drama se faz presente – que ainda está para ser escrito. E não é loteria!

[Uma indicação de artigo que saiu na Foreign Policy aqui. Walt comenta o livro de Bush filho, Decision Points, lançado hoje. Está bem interessante!]


Categorias: Ásia e Oceania, Brasil, Defesa, Estados Unidos, Paz, Política e Política Externa, Segurança


1 comments
Mário Machado
Mário Machado

É preciso admitir algo que causa muito desconforto em nossa comunidade epistemológica, mas a política externa do Brasil nessa agenda pode estar errada, muito errada. Querer adentrar ao clube dos 'mais iguais' apenas com política de prestigio e alguma potência econômica (a segunda menor dos fictícios BRIC), nos falta poder real para querer postular com eficiência a ser um global player de peso.Esse discurso de Obama não trouxe como era de se esperar uma agenda para discutir seriamente reformas na ONU (claro que as reformas fisicas que tomam lugar continuam, se me permitem o gracejo).Nossa esperança pode residir numa tentativa do Ocidente evitar que todo o peso político do mundo saia do Atlântico para o Pacifico (indico também, mas o ponto já foi feito). Quando defendo isso recebo comentários raivosos e impublicaveis com epítetos curiosissimos sempre ligados aos caninos. Mas, acho que a ação externa do Brasil, envolta em ativismo, pode estar a superestimar o poder de nosso país. O que é um perigo.Abs,