Reflexos da Primavera

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Fonte: aljazeera.com

Durante os últimos dias, o Egito voltou a ocupar as principais manchetes dos jornais. Algumas mortes e centenas de feridos foram o resultado de várias manifestações realizadas na cidade do Cairo em virtude da futura promulgação de uma nova Constituição Egípcia, a qual está marcada para acontecer nos próximos dias 15 e 22 deste mês. O que se sabe, até o presente momento, é que estamos presenciando a pior crise política do presidente Mohammed Morsi desde sua eleição em Junho. 

Tanto o processo constitucional quanto os novos protestos que tomam as ruas, mesmo possuindo nuances distintas em comparação com as manifestações ocorridas em 2011, são reflexos diretos da Primavera Árabe no Egito. Isso porque de um lado estão a Irmandade Muçulmana e os salafistas (apoiadores do presidente) e de outro os opositores “liberais”. A eleição de Morsi, bem como o ganho de poder por parte da Irmandade e da chamada “Crescente Salafista” foram algumas das consequências de todas as manifestações anteriores vistas na Praça Tahrir. 

Nos bastidores deste palco estão dois temas muito conhecidos: religião e democracia. Ainda nas prévias das eleições, o debate entre islâmicos ortodoxos e liberais já era visível. Grupos como a Irmandade Muçulmana Egípcia acabaram ganhando uma nova roupagem “pós-Primavera”, mesmo tendo um discurso mais conservador e totalmente baseado na máxima de que o Islam is the solution. Como a população queria uma mudança política e, consequentemente, social, uma maneira de barrar os governos ditatoriais era consolidar o levante de novas organizações. 

Ademais, a tão contestada democratização ainda está em pauta no país. Quando falamos em Oriente Médio e países árabes, o Egito (em conjunto com a Tunísia) foi um dos países que mais sentiu os reflexos práticos da Primavera. Entretanto, mesmo lá ainda é um pouco contestada a ideia de existir um processo mais democrático e participativo. A atual oposição de Morsi fala justamente que a nova Constituição é manobra política para manter os poderes da Irmandade. 

A Primavera Árabe é um processo muito recente e ainda não sabemos quais são e serão seus resultados práticos. Mudanças acontecem e, com toda certeza, permanecerão no curto e longo prazos. No Egito, Morsi precisará muito mais do que a saída de Hosni Mubarak para se legitimar no poder. E isso levará um tempo considerável.


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


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