Reflexões para o futuro

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Uma questão intrigante para começarmos, que expressa bem a redistribuição global do poder e o reposicionamento dos países no mundo, é o Conselho de Segurança da ONU. Todos sabemos que a missão central do organismo é zelar pela paz e segurança internacionais. Também sabemos que isso inclui deter um poder militar condizente a essa missão, certo? Pois bem, de acordo com os dados do site Global Firepower, a França não mereceria mais ocupar um assento permanente, já que ocupa apenas a 8ª posição, atrás de três países emergentes: Índia (4ª), Turquia (6ª) e Coreia do Sul (7ª). Mas é claro que esse posto também é assegurado por razões históricas, prestígio e poder econômico. Neste último aspecto, os top-5 deixam a desejar ainda mais: não apenas pelas consequências da atual crise financeira que enfrentam, senão pela posição que ocupam na economia mundial, de acordo com PIB. Reino Unido e França, por exemplo, ocupam, respectivamente a 8ª e 9ª posição.

O agravamento da violência na Síria, que suscita uma resolução de condenação pelo Conselho de Segurança e abre espaço para uma possível intervenção militar, é um exemplo da manifestação das transformações em curso no âmbito do poder global. As potências tradicionais, notadamente Estados Unidos e Europa, querem adotar a resolução, enquanto os países emergentes, principalmente Brasil, Índia e África do Sul, são contrários. De um lado, uma estratégia de força; de outro, uma estratégia de fala. A dúvida é: qual o limite para as duas serem levadas separadamente e de que maneira elas se relacionam? Este debate provavelmente permanecerá em aberto e trará tanto dificuldades para administrar a ordem mundial quanto possibilidades mais amplas para a cooperação. Uma coisa é clara: não é mais possível prevalecer apenas a opinião das potências tradicionais. O Concerto Europeu ou a Pax Americana pertencem à história.

A prevalência de uma opinião absoluta do Ocidente pseudo-hegemônico silencia riscos importantes. Mesmo o terrorismo é preciso ser desmistificado. A Guerra Global contra o Terror, capitaneada pelos Estados Unidos, infundiu um maniqueísmo sem precedentes – “ou vocês estão conosco ou contra nós” – e marchou sobre a diferença, denegrindo a imagem de religiões e povos. Quer exemplo melhor dessa situação do que o ocorrido na Noruega? O dedo acusador do governo apontou um muçulmano como culpado, quando, na verdade, era um nacional da extrema direita. (Vejam estes dois artigos 1 e 2, de um professor de Filosofia da UFRGS e do ex-Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, respectivamente). Mais do que isso, demonstrou que o terrorismo não está “lá fora” ou é praticado por quem vem de fora, e sim que é algo endógeno. Aliás, é só pensarmos: além do 11/09, Madri e Londres, quais foram os grandes atentados terroristas tidos como globais?

O terrorismo ainda conduziu a uma espécie da amnésia coletiva. Não é apenas a política conduzida de maneira extrema que mata, a ausência da política é igualmente fatal. Previsões indicam que a população mundial deve ganhar a adição de mais 1,2 bilhões de pessoas, o que provocará pressão sobre os recursos alimentares, energéticos e hídricos. É calculado que a demanda por esses recursos aumentará entre 30-50%, já levantando o problema da escassez. Hoje, as estimativas são de que um em cada cinco habitantes do planeta não tem acesso à água potável, sem contar que cerca 70% dela, em nível mundial, é utiliza para a irrigação. Dois dados já antigos, que prevalecem praticamente semelhantes hoje, em 2002, 1,2 bilhões de pessoas viviam com menos de um dólar por dia; com menos de dois dólares diários, esse número se elevava para 2,8 bilhões. A questão é que problemas como esses não aparecem todos os dias na TV ou na internet.

Caetano Veloso já cantava, “Alguma coisa/ Está fora da ordem/ Fora da nova ordem mundial”, agora, acontece. Por um lado, os países que sobem e os que descem precisam encontrar mecanismos comuns para a governança global, por outro, devem permanecer atentos aos novos riscos. Do contrário, não será mais uma escolha entre a vida e morte, mas entre a escassez e a morte. Costuma-se dizer que toda civilização evolui quando atinge um ponto crítico. Será que chegamos ou precisamos chegar a um ponto mais crítico para evoluir? Em algum canto do mundo, as pessoas estão morrendo não pelas decisões que os países estão tomando, mas pelas questões que estão deixando de tratar, por esquecimento ou impasses. Infelizmente…

[As informações para este post foram coletadas, principalmente, no site do PNUD.]


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